Coreia do Norte – O Regime (Parte 6)

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Sob influência da antiga URSS e liderada pelo Presidente Kim Il-sung, a Coreia do Norte se tornou um país socialista a partir de 1945, inicialmente, com base marxista-leninista e, posteriormente, guiado por uma filosofia própria, a Ideia Juche. Mesmo com diversas vertentes, como cubana, chinesa, soviética, coreana e bolivariana, o socialismo preserva características inconfundíveis que definem o seu sistema de organização socioeconômico.

Socialismo

Os países socialistas são aqueles que, baseados em Marx, entendem que a estrutura social vigente é opressora, ou seja, que uma camada social (burguesia ou elite) explora o trabalho da camada mais baixa (proletariado). Dessa forma, quando implementado como política de estado, o Socialismo deverá romper com todas as tradições e costumes vigentes e remodelar a sociedade com base na sua ideologia, acabando com a propriedade privada e colocando sob o controle do Estado: casas, edifícios públicos, empresas, carros e/ou qualquer bem de relevância econômica. Ninguém mais é dono de nada. Em contrapartida, o Estado proverá saúde, educação e todos os meios de subsistência para todos os cidadãos, de forma igualitária e sem privilégios.

Monumento à Fundação do Partido dos Trabalhadores da Coreia – PTC. Foto: Arquivo pessoal

No Socialismo, o interesse coletivo se sobrepõe ao individual, portanto, as liberdades individuais são restringidas e controladas pelo Estado, objetivando a manutenção da igualdade entre as pessoas. Já no Capitalismo, o interesse individual se sobrepõe ao coletivo, as liberdades individuais são muito mais respeitadas e preservadas. Entender essa diferença é essencial para compreender como agem os países socialistas, em especial a Coreia do Norte.

Os governos socialistas são sempre autoritários e com forte controle estatal, tanto econômico como de costumes. Não há liberdade individual, principalmente para ir e vir, de pensamento, opinião, religião e, inclusive, para entrar e sair do seu próprio país. Em geral, quando implementados, passam por um curto período de euforia em que tudo parece funcionar bem. Porém, com o tempo, surgem problemas como crise econômica, fome, assassinatos, mortes por inanição e cada vez mais domínio, chegando, muitas vezes, ao controle mental das pessoas, o que acontece especialmente na Coreia do Norte.

O Partido

Bandeira do Partido e bandeira do país, sempre lado a lado. O Partido controla o Estado. Foto: Arquivo pessoal

Assim que o regime foi instaurado na Coreia do Norte, como em outros países onde também foi aplicado, criou-se um partido único de controle do governo e os demais partidos foram extintos ou enfraquecidos. Além disso, poderes ditatoriais foram concedidos ao líder governamental. Opositores foram caçados, presos, torturados e assassinados, até que só restasse quem concordava com o regime, seja pelo medo, por interesse ou convicção.

O partido que domina a Coreia do Norte é o Partido dos Trabalhadores da Coreia (PTC), criado em 1949 a partir da fusão de outros partidos comunistas que existiam na época. Por ser o único partido que controla o governo, o exército e todas as esferas do Estado, sempre que nos referimos ao Partido, falamos, necessariamente, da elite política do país. Os líderes do partido são imediatamente os líderes do governo, e o Grande Líder e comandante do Estado também será o presidente do partido.

Símbolo do Partido dos Trabalhadores da Coreia. Imagem: PCdoB

O símbolo do Partido une a tradicional Foice (simbolizando o trabalhador rural) e o Martelo (simbolizando o trabalhador urbano), junto ao Pincel de escrita coreano, que simboliza o conhecimento e a Ideia Juche.

Embora inspirado, ideológica e politicamente, no marxismo-leninismo que vigorava na URSS, aproveitou-se da filosofia da Idea Juche, criada pelo Presidente e Grande Líder Kim Il-sung e introduzida no país a partir dos anos 60. Você vai encontrar mais sobre o tema neste artigo aqui, mas o importante é entender que, com a mudança ideológica, manteve-se o controle total, bem como todos os preceitos já estabelecidos pelo regime socialista marxista-leninista. No entanto, foram incorporados aspectos de nacionalismo, autossuficiência política e econômica. Também, de certa maneira, foi flexibilizada a questão das diferenças sociais, com a introdução de um sistema de castas chamado Songbun, com controle para ascensão social, que detalho melhor neste artigo. De todo modo, nesse novo sistema de castas, o topo da sociedade, ou seja, a elite, ficou basicamente restrito aos membros relevantes do partido e ao alto escalão do governo, com direitos e privilégios diferenciados, como morar em Pyongyang, ter carro, celular e outros benefícios fornecidos pelo Estado.

De forma totalmente contraditória ao Socialismo (pelo menos na teoria), o país se tornou desigual, conseguindo, inacreditavelmente, convencer as pessoas de que o regime proporciona a igualdade. Ou seja, o governo conseguiu fazer a população acreditar que o sistema de castas, que divide a sociedade em classes sociais, construindo uma elite, uma classe média e uma massa de pobres, gera igualdade entre os cidadãos norte-coreanos. É insano, eu sei, mas eles acreditam que são um país socialista e igualitário. Abordarei melhor esse tema em outro post.

Broche utilizado pelos membros do partido na RPDC. Imagem: El País

Os cidadãos que são membros do partido ou estrangeiros com grandes contribuições ao país (incluindo doações em dinheiro) podem usar um broche que contém a imagem de um dos grandes líderes ou dos dois. Qualquer cidadão com mais de 18 anos que se filiar ao partido poderá receber um broche, no entanto, isso por si só não proporciona privilégios. Será preciso demonstrar, constantemente, grande devoção ao Grande Líder e ao Estado, além de cultivar ótimos relacionamentos políticos.

Culto aos Líderes

O conceito de culto ao líder foi implementado com grande sucesso na Coreia do Norte. Essa estratégia comunista foi aplicada em diversos países pelo mundo. Veja, por exemplo, como Fidel Castro e Che Guevara são idolatrados em Cuba, Mao Tse Tung na China, Lenin e Stalin na URSS, Hugo Chávez na Venezuela e, de certa maneira, como tentaram (e ainda tentam) fazer o mesmo com Lula aqui no Brasil. Na Coreia do Norte, com a extinção das religiões, o direcionamento das devoções e o culto ao Grande Líder (e o fato de que os asiáticos têm uma propensão ao respeito e à submissão a autoridade), os poderes ditatoriais ganharam uma dimensão jamais vista no mundo, onde absolutamente ninguém tem o desejo (ou a coragem) de questionar o governo ou qualquer decisão de seus líderes.

Mais de 40 mil imagens dos grandes líderes estão espalhadas pelo país. Foto: Arquivo pessoal

Quando perguntei a uma das guias se existem pessoas que discordam de alguma medida do governo ou de alguma decisão do Grande Líder, fui respondido enfaticamente: “Por que alguém não iria concordar com o regime ou com o Grande Líder? Tudo o que ele faz é pelo povo, tudo é para o povo. Ele dá sua vida para o povo, como alguém poderia ser contra isto? Eu, particularmente, não tenho absolutamente nada, nem a menor que seja, observação ou crítica quanto ao regime ou ao Grande Líder”. Sinceramente, fiquei em dúvida se a resposta foi totalmente sincera ou se houve algum medo de que pudesse ser interpretada, mesmo que da maneira mais sutil possível, como alguma crítica ao regime, o que resultaria em punição.

Em todas as casas encontram-se fotos dos dois Grandes Líderes pregadas nas paredes. Os moradores os reverenciam algumas vezes por dia. São mais de 40 mil imagens e estátuas dos Grandes Líderes espalhadas pelo país em ambientes públicos. Em todas as salas, de todas as repartições, você encontrará essas imagens. Pessoas vão até as estátuas públicas para prestar reverência a eles diariamente.

Não são meros políticos, são imaculados, super-humanos, divindades. E quem ousa questionar uma divindade?

Em determinado momento, conversando com as guias, falei que, no Brasil, pagamos cerca de 30% do salário em impostos (fui modesto, confesso) e, mesmo assim, temos de comprar nossa casa, pagar por educação e saúde, pois os serviços públicos são muito ruins, tentando explicar como as coisas funcionam fora do regime socialista. Ela me interrompeu e emendou: “Venha morar aqui então! Aqui, não pagamos impostos e temos tudo de graça”.

É incrível como as pessoas não conseguem enxergar que pagam 100% de imposto e absolutamente nada do que recebem é gratuito, elas trabalharam para isso!

No vídeo acima, mostro a cerimônia de entrega de casas próprias para a população, uma espécie de COHAB. Note a devoção, gratidão e alegria por terem “ganhado” uma casa.

Economia

Por não respeitar diversas diretrizes dos Direitos Humanos e outras determinações da ONU, o país recebe diversas sanções comerciais, limitando seus negócios basicamente à China, parceiro que ainda compartilha da mesma ideologia, embora venha abrindo caminho para o capitalismo (de estado) nos últimos anos e crescendo economicamente de forma intensa. A China compra muito carvão da Coreia do Norte e tem empresas que geram empregos por lá. Embora esse relacionamento seja positivo para os norte-coreanos, está longe de ser o suficiente para desenvolver o país. Por exemplo, não há praticamente nenhuma tecnologia agrícola, todo o processo de cultivo é feito de forma artesanal, utilizando, inclusive, carros de boi para transporte, frequentemente vistos pelo interior do país.

Controle Mental

A propaganda política é intensa. Em diversos pontos da cidade, encontramos “convites” à revolução, à luta e ao trabalho. Símbolos que eram comuns nas ruas da URSS na década de 30 decoram as ruas da RPDC com o mesmo estilo gráfico, praticamente 90 anos depois. É uma viagem no tempo, que, muitas vezes, gera uma certa tristeza de ver como, em diversos aspectos, o país está paralisado. Na TV e no rádio, a propaganda política é massiva. Em outro post contarei mais detalhes, mas imagine ter 100% do tempo de TV com aquelas propagandas políticas de campanha eleitoral, exibindo o candidato entregando obras, sendo abraçado e ovacionado pelo povo, beijando criancinhas, comendo pastel e todo mundo adorando o que ele faz. Isso é a programação da TV e do rádio da Coreia do Norte, e não há outra opção.

Monumentos e propagandas políticas são encontrados quase a cada quarteirão. A bandeira vermelha é um chamado à revolução. Foto: Arquivo pessoal

Imagens políticas em Pyongyang, mas não restritas à capital da Coreia do Norte. Foto: Arquivo pessoal

Desde a infância, ainda na escola, os norte-coreanos são ensinados sobre a história sofrida de quando eram explorados pelo Japão e os feitos heroicos dos Grandes Líderes para libertá-los. Da mesma forma, são orientados desde muito cedo a idolatrar os líderes e aceitar o que é definido pelo alto escalão do governo sem nunca questionar (até porque não têm acesso a nenhuma informação divergente que dê sustentação a qualquer argumentação contra o regime). O acesso à informação é altamente controlado.

Como nós temos acesso a outras informações, internet, imprensa livre e liberdade de expressão e opinião, sabemos identificar claramente quando uma propaganda política é mentirosa ou exagerada. Já eles, totalmente privados do contraditório, só recebem a informação que vem do governo e, por conta disso, acreditam em tudo o que é transmitido como notícia, aumentando ainda mais o grau de manipulação e controle que o Estado impõe aos cidadãos. É uma bolha ideológica que irei abordar melhor em outro post.

Liberdade

Muitas coisas me impressionaram nessa viagem e me fizeram refletir sobre diversos aspectos do Brasil e do Mundo, mas, certamente, saber que temos liberdade de pensar e de agir, bem como acesso à informação, foi o ponto alto.

Podemos entrar e sair do país quando desejarmos, escolher nossa profissão, onde morar e o que comprar, ter carro, celular, acesso à internet e às redes sociais. Temos liberdade religiosa e uma imprensa livre. Temos liberdade e, por mais que algumas dessas coisas não sejam acessíveis economicamente a toda a população, ninguém proíbe ou limita essas “regalias” só a amigos partidários, de modo que, independente de religião ou ideologia política, todas as pessoas têm o mesmo direito ao acesso.

Não é aceitável que alguém detenha o poder de decidir sobre a vida de outra pessoa e, muito menos, de limitar algumas liberdades somente àqueles amigos próximos, criando uma elite do tipo puxa-saco.

Temos nossa liberdade como algo básico e natural e sequer imaginamos alguém controlando coisas como o livro que podemos ler ou a comida que podemos comer, mas eles, na Coreia do Norte, não têm – e isso é desolador.

Um estado altamente controlador, um líder que é uma divindade, uma economia totalmente fragilizada e um forte controle mental das pessoas. Talvez isso resuma a Coreia do Norte.

Monumento à Fundação do Partido dos Trabalhadores da Coréia – PTC. Ao fundo, os prédios residenciais simbolizam a bandeira vermelha da revolução. Foto: Arquivo pessoal

No próximo post, irei falar sobre a vida do norte-coreano, seus costumes, lazer, esportes, casamento e outros aspectos do cotidiano.

Coréia do Norte – Vida e Costumes (Parte 7)

Começar a série pela Parte 1 (Mitos e Verdades)

 

 


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