Coréia do Norte – Igualdade (Parte 8)

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A Coréia do Norte é socialista e isto significa que o país foi redesenhado e totalmente reestruturado para acabar com diferenças sociais causados pelo capitalismo buscando a igualdade das pessoas. Para os norte-coreanos isto é motivo de orgulho e eles ressaltam isto constantemente. Turistas são proibidos de levar qualquer tipo de material como livros, folhetos ou matérias em revistas que falem mal do socialismo. Nós fomos exaustivamente orientados a não questionar o socialismo em momento algum, e seguimos a risca esta regra para podermos tem um bom convívio com os guias.


Começo este post ressaltando este aspecto pois a questão da igualdade é ferozmente defendida na teoria, mas não encontra concordância com a prática. Não posso dizer que é uma hipocrisia pois não dá para saber exatamente o que as pessoas pensam, afinal, algumas realmente acreditam no regime e outras, para não perderem seus privilégios, o defendem num misto de medo e conivência. Mas um fato ficou evidente: o regime definitivamente não preza pela igualdade.

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Como abordei neste post, durante a Guerra Fria o mundo ficou dividido entre o Capitalismo e o Socialismo, e neste cenário de guerra ideológica, ambos queriam ostentar grandes feitos, poder, cultura, força e felicidade e para isto investiam fortemente na propaganda externa.

Pyongyang do Alto da Torre Juche. Foto: Arquivo Pessoal

Pyongyang é uma cidade vitrine, feita para fazer propaganda do regime para dentro do país e, principalmente para fora. Prédios suntuosos, monumentos enormes, imensos museus e muito “luxo e conforto” são ostentados como se todos os cidadãos pudessem usufruir de todas estas benesses, sem qualquer distinção de classe social e sem custo algum, tudo gratuitamente dado pelo estado ao cidadãos.

No entanto, quando se sai de Pyongyang percebe-se o abismo que existe entre a Capital e o restante do país. Ou seja, a propaganda de sucesso do regime que Pyongyang representa não condiz com a realidade da grande maioria da população.

Ryungyong é um suntuoso hotel de 105 andares mas que só existe do lado de fora. A parte interna não foi concluída, mas ele já cumpre o seu papel. Foto: Arquivo Pessoal

Como abordei neste post, a capital oferece muitos recursos que tornam a vida do norte-coreano que vive em Pyongyang mais próxima da vida de quem vive em uma cidade mediana de um país capitalista. Para quem mora em Pyongyang tem até parque aquático disponível, enquanto para quem vive no restante do país, comer alguns tipos de vegetais já é um grande privilégio.

Para um país que ostenta a igualdade isto é um tremendo contra-senso. Como certa vez um amigo me disse: Se no socialismo todos são iguais, então quem irá morar na casa de frente para o mar? E a resposta para isto está na elite que em outros países socialistas era formada basicamente pelos membros do Politburo – que também existe na Coréia do Norte – mas que é principalmente formada pelo sistema de castas criado na RPDC chamado Songbun.

Songbun

Songbun é o sistema introduzido pelo Partido para determinar o nível de dedicação que as pessoas tem para com os grandes líderes, o partido e o regime como um todo.

Baseado no histórico de cada família, a sociedade foi dividida em 3 grupos: Amigáveis, Neutros e Forças Inimigas. Ou seja, um sistema de castas baseado no quanto cada família se relaciona e apoia o regime e o governo. Os altos escalões são reservados às famílias que tiveram participação nas guerras ou que tiveram participação na fundação do partido ou no seu apoio. Os neutros, são aqueles que não tiveram nenhuma relevância histórica mas são submissos ao regime e não representam ameaça, já as “Forças Inimigas” ou “Hostis” são aqueles que eles consideram um risco ao regime, como ex-proprietários de terras, negócios ou bens de produção, que foram confiscados quando o socialismo foi implementado. Segundo a CIA, 30% da população pertence a elite, 40% são neutros e 30% são hostis.

A elite da elite pode ter carros de luxo. Foto: Arquivo Pessoal

Embora o sistema seja baseado nos fatos históricos, existe um controle individual que é atualizado a cada dois anos de cada cidadão com mais de 17 anos. A pontuação do songbun de cada pessoa raramente aumenta, no entanto, pode sofrer alterações para baixo dependendo de diversos fatores como: com quem a pessoa se casar, seu entusiamo político e também se ele ou algum membro de sua família cometer algum tipo de crime.

O morador do campo, uma carroça. Foto: Arquivo Pessoal

A partir da década de 1990 o Songbun começou a perder importância para o povo norte-coreano em geral, sendo ainda relevante apenas para o mais alto escalão do governo. Com o colapso do socialismo na Europa, a aproximação com a China se tornou mais intensa e diversas empresas chinesas abriram indústrias na Coreia do Norte, desta maneira, trabalhar em uma destas empresas dá a estes cidadãos um status social mais elevado e, consequentemente, são considerados a nova elite do país, pois eles tem acesso a bens de consumo que outros não têm, inclusive alguns podem viajar para a China a negócios e trazer bens de lá, como os muitos que vimos no trem na vinda.

Atualmente a riqueza individual obtida por trabalhar em empresas chinesas tem tido mais importância social do que sua pontuação no songbun. No entanto, só isto não basta para ser alguém da elite, uma vez que alguns bens, como celular e automóveis, são fornecidos pelo estado e para ter um você necessariamente precisará ter, além de uma boa justificativa, um ótimo relacionamento político, ou seja, seu songbun irá contar na hora de definir onde você irá morar e quais bens da elite você poderá ter.

Os Privilegiados

Morar na capital é um privilégio que apenas uma parcela pequena da população tem. Quando perguntei para a guia se era permitido a alguém que mora no interior do país mudar-se para Pyongyang, ela me informou que as pessoas não costumam mudar-se de onde nasceram, elas não tem este desejo, no entanto, caso queiram, terão de justificar e solicitar uma autorização ao governo que irá avaliar a real necessidade para aprovar a mudança.

Amanhecer em Pyongyang. Foto: Arquivo Pessoal

É importante lembrar que as pessoas não são donas de suas próprias casas e não podem comprar uma casa, logo, mudar-se de uma cidade implica em o governo disponibilizar outra casa para ela nesta cidade.

Viajar livremente entre cidades já não é permitido para o norte-coreano, sendo necessário justificar e requisitar uma autorização ao governo, então imagina a dificuldade que não deve ser conseguir esta autorização para mudança de cidade. Desta maneira, Pyongyang acaba sendo um reduto da elite do país blindada dos “pobres” de outras cidades que sequer podem visita-la livremente, quem dirá mudar-se para lá. Segundo a guia, se não houvesse este controle, todos iriam querer morar em Pyongyang. Claro!

Automóveis em Pyongyang. Foto: Arquivo Pessoal

Automóveis, assim como celulares, são presentes do governo dados a quem justificar real necessidade. O curioso que notei é que algumas pessoas conseguiram justificar a necessidade de ter uma BMW ou uma Mercedes com motorista particular, ou a necessidade de realizar viagens para a China para fazer compras, como um senhor que estava na mesma cabine que eu no trem de ida e levava mais de 5 mil dólares em artigos declarados na alfândega comprados na China.

Complexo residencial dos professores e artistas. O Leblon deles. Foto: Arquivo Pessoal

Os professores são uma classe que tem alguns privilégios também. Embora eles tenham um salário inferior ao de um trabalhador, eles tem descontos em lojas e normalmente as melhores casas populares são destinados a eles. Quando o novo bairro de professores foi inaugurado com belos prédios novinhos e com ótima estrutura de lojas e mercados para eles, houve uma grande procura de pessoas querendo casar-se com professores. Este bairro também é onde moram os artistas, ou seja, as celebridades do cinema e da música no país. Em resumo, é o Leblon deles.

Os professores são muito respeitados pois eles levam o conhecimento para as pessoas e esta é uma das 3 principais bases do regime. No entanto, no meu entendimento, o valor do professor não está em levar o conhecimento crítico ou no ensinar habilidades técnicas, mas sim, em doutrinar e difundir as ideias do partido e a Ideia Juche, que cria uma cultura de culto ao líder e total submissão ao regime. Desta maneira, para a manutenção do regime, eles de fato são importantíssimos.

A massa

A principal crítica que o socialismo faz ao capitalismo é a mais-valia, ou seja, a parcela que o proprietário dos meios de produção se apropria do trabalho de outra pessoa. Isto significa que o dono de uma empresa toma do seu funcionário parte do resultado do seu trabalho e enriquece com o trabalho dos outros. Neste sentido, como no socialismo todos os meios de produção são do povo (do estado), não existe a mais-valia e com isto todo o esforço do trabalho é devolvido para o próprio trabalhador. Na teoria.

Trabalhadores e militares descansando sobre carga de alimentos para estocagem no inverno. Foto: Arquivo Pessoal

A conta de todos os privilégios da elite que mora em Pyongyang é paga com o suor de todos os trabalhadores do país. Quem trabalha no campo ou na construção civil e passa a vida comendo arroz e vegetais, tem boa parte do seu trabalho sendo apropriado pela elite do país que terá carro, celular e poderá comer churrasco de pato ou ir esquiar nas férias. As massas pagam a conta da elite mas não conseguem enxergar isto.

Moradias do Interior da RPDC. Prédios simples com estrutura e pintura básicas. Prédio de até 7 andares sem elevador. Foto: Arquivo Pessoal

Obras de moradias que foram abandonadas e acabaram invadidas por outros moradores. Foto: Arquivo Pessoal

Em um dos momentos mais curiosos da viagem, nós comentamos que pagamos cerca de 30% do nosso salário em imposto e temos de comprar casa, pagar por estudo e saúde porque os serviços públicos são precários, e a guia nos convidou a morar na Coréia do Norte pois lá eles não pagam impostos e tem tudo de graça.

Crianças em frente a moradias populares na RPDC. Foto: Arquivo Pessoal

Definitivamente eles não são ensinados a fazer conta. Eles acham que não pagam imposto sendo que na verdade 100% do seu produto de trabalho é tomado como imposto. Eles acreditam que ganham comida, saúde e educação de graça, mas não param para pensar de onde vem o dinheiro para comprar estes serviços. Ou seja, como diria Milton Friedman: Não existe almoço grátis. Mas eles não sabem e nunca saberão quem é Milton Friedman pois o governo jamais deixará eles saberem disto.

Pyongyang significa “Planície” ou “Terras Planas”. Os norte-coreanos tentam aproveitar tudo o que podem de seu território. Com apenas 20% de suas terras em áreas planas onde é possível praticar agricultura, os trabalhadores rurais precisam se dedicar muito para extraírem o máximo que puderem das terras. Eles reutilizam o solo na entre-safra de arroz para cultivo de milho e tabaco. No inverno, quando não é possível cultivar nada, eles trabalham na estocagem e na produção de maquinário agrícola, mas não estou falando de colheitadeiras ou tratores, mas sim de enxadas, foices e carros de boi. Toda a produção agrícola do país é artesanal, o que demanda ainda muito mais esforço físico dos produtores rurais.

Durante o inverno não há colheira nem plantação. Foto: Arquivo Pessoal

Vida no interior da RPDC. Foto: Arquivo Pessoal

Ruas desertas no interior do país. Ausência total de automóveis. Foto: Arquivo Pessoal

Em todas as cidades do interior por onde passei o cenário era sempre o mesmo: nenhum automóvel e pessoas se locomovendo a pé ou de bicicleta. Foto: Arquivo Pessoal

Mais uma cidade sem automóveis. Foto: Arquivo Pessoal

Embora muito simples e feitas com o mínimo de recursos, eles tentam manter as casas e edifícios públicos sempre pintados e bem organizados. Foto: Arquivo Pessoal

A igualdade tão defendida e propagada na Coréia do Norte não corresponde à realidade. Sob o pretexto de livrar a população da exploração capitalista, a elite política do país explora as massas e investe fortemente no convencimento, na manipulação e na repressão para que elas não se rebelem contra o governo.

Cena do Século XIX, pessoas usando carro de boi, é extremamente frequente no interior da Coréia do Norte. Foto: Arquivo Pessoal

No capitalismo o pobre pelo menor tem a possibilidade de ascender socialmente por seus próprios méritos, já na Coréia do Norte, ele precisa vir de uma boa família e ter bons relacionamentos políticos, caso contrário, estará para condenada a viver do mesmo modo que nasceu, no mesmo lugar que nasceu e sem qualquer perspectiva de mudança.

No próximo post irei falar sobre a bolha em que os norte-coreanos vivem e que é totalmente controlada e manipulada pelo governo.

Coréia do Norte – A Bolha (Parte 9)

Começar a série pela Parte 1 (Mitos e Verdades)

 


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