Coreia do Norte – A Bolha (Parte 9)

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A Coreia do Norte é o país mais fechado do mundo. O governo controla com mão de ferro qualquer possível interferência que a população possa receber de fora sob o pretexto de defender a cultura, os costumes e o território do imperialismo americano. No entanto, ao que me parece, o objetivo é, na verdade, ter o controle da comunicação para domínio da população. Privados do contraditório, nunca vão se rebelar contra o regime.

Mídia

O governo controla toda a informação que chega aos cidadãos, filtrando notícias, distorcendo fatos ou nitidamente manipulando dados para construir uma narrativa de constante tentativa de invasão americana no país, de modo a justificar medidas de controle impostas pelo estado.

Jornal estatal no metrô de Pyongyang. Foto: Arquivo pessoal

Na semana em que cheguei à RPDC, a notícia de que um alto executivo da Huawei, gigante chinesa de celulares, havia sido preso no Canadá rodava o mundo. A informação havia chegado a eles (até porque a China é um parceiro ideológico) e a notícia interessava ao governo por fortalecer a narrativa de perseguição política. Porém, na mesma semana, a China prendeu um canadense que mora em Dandong, chamado Michael Spavor. Ele é bem famoso na Coreia do Norte por ter uma agência de turismo que vende pacotes para a RPDC, além de ter conhecido o Grande Líder Kim Jong-un pessoalmente e ter levado o jogador de basquete Dennis Rodman para visitar o país. Michael foi preso pelo governo da China em retaliação à prisão do executivo da Huawei, o que gerou um grande problema diplomático. Essa notícia não chegou aos norte-coreanos.

O caso que mais me assombrou e exemplifica bem como as informações chegam manipuladas foi o do americano que foi preso por tentar roubar um cartaz do quinto andar do mesmo hotel em que fiquei hospedado. Trata-se de um andar exclusivo para os funcionários – o número 5 sequer consta no elevador social. Ele subiu pelas escadas, foi visto pelas câmeras de segurança, preso e condenado a 15 anos de prisão em um campo de concentração com trabalhos forçados. Após dois anos, foi devolvido aos EUA em coma e, poucos dias depois, faleceu.

Este jovem era um simples turista de 22 anos que foi viajar com os amigos, bebeu demais e fez uma idiotice. No entanto, a história oficial na Coreia do Norte é a de que ele era um agente infiltrado da CIA e iria receber recompensas em dinheiro por roubar símbolos do Grande Líder. Segundo a guia, ele não tentou roubar um cartaz, mas uma placa de metal com o nome do Grande Líder. Por ser de um material muito pesado, não teria conseguido levar, mas seu interesse era vender esse símbolo para a CIA.

Otto Frederick Warmbier, o jovem que foi preso pela RDPC, de fato assumiu que roubou o cartaz no quinto andar do Hotel Yanggakdo e iria receber uma recompensa financeira de uma igreja metodista (e não da CIA) pelo roubo e, com isso, “prejudicar a imagem da Coreia do Norte no Ocidente”.

Segundo a CIA e a própria família do jovem, ele foi torturado, obrigado a fazer tais afirmações (que, cá entre nós, não fazem o menor sentido) e alvo de maus-tratos, o que culminou com seu retorno já em coma. Para os norte-coreanos, ele pegou uma doença, virose ou algo do tipo. Eis a notícia oficial.

Foi muito difícil segurar o riso nessa hora, confesso, afinal, qual interesse a CIA teria em “símbolos do Grande Líder”? Por que alguém pagaria pelo roubo desses itens? É uma história surreal, que só faz sentido dentro do contexto em que eles vivem, com total sentinela, preparados para iminentes ataques do imperialismo americano contra a honra e os valores do país.

A situação ilustra bem dois efeitos da bolha em que vivem: primeiro, que a notícia foi totalmente distorcida para os norte-coreanos; segundo, que realmente acreditam na grande relevância do Grande Líder para o mundo. Como idolatram os Grandes Líderes e absolutamente qualquer objeto que faça referência a eles, os norte-coreanos pensam que o mundo tem a mesma admiração pelos seus heróis e deuses nacionais, já que foram doutrinados desde a infância sobre isso.

Hotel Yanggakdo, o mesmo onde o rapaz roubou o cartaz e fiquei hospedado. Foto: Arquivo pessoal

A RPDC tem quatro canais de TV. Destes, dois funcionam durante a semana, mas um é cópia da programação do outro. Os demais canais só funcionam aos finais de semana e em horários bem específicos, exibindo filmes norte-coreanos ou esportes. Eu assisti bastante à programação enquanto estive lá e notei que apenas um canal estava sempre ativo. No menu do hotel, apenas dois canais apareciam disponíveis e o segundo estava sempre fora do ar.

A programação da TV é formada, basicamente, por clipes musicais que narram a história dos Grandes Líderes, exaltam as belezas naturais ou a grande dedicação do povo na construção do país. Boa parte também mostra o que o governo tem feito de bom para a população. Cenas emocionadas de entrega de creches ou moradias são narradas de forma apoteótica. Pessoas chorando de gratidão e fazendo reverências ao grande líder são frequentes.

Cenas do Grande Líder Kim Jong-un visitando indústrias, escolas, mercados e navios de pesca, opinando sobre absolutamente tudo, são igualmente habituais. Ele determina alterações nas embalagens de salgadinhos, opina na construção de casas, na decoração de escolas etc. Ao seu lado, sempre um grupo do alto escalão do governo munido de caderninhos e canetas para anotar – ou fingir que anota – tudo que ele diz. Segundo a guia, Kim Jong-un, assim como seu pai e avô, possui grandes conhecimentos e tem muito a ensinar. Portanto, as anotações tratam de considerações altamente relevantes e ajudam a lembrar de executar tudo corretamente depois. No entanto, ficou evidente que querem passar a imagem de um ser onisciente, sobre-humano e infalível, o que torna suas decisões irretocáveis e irrefutáveis, desestimulando o povo a questioná-las.

A RPDC tem rádio e jornal, também estatais. Não existe mídia independente no país. A Internet também não existe para eles. No celular, usam uma espécie de intranet, destinada apenas ao próprio país. A guia chegou a me passar seu e-mail e pediu que mandássemos notícias, afinal, fizemos uma boa amizade. Perguntei se ela tinha alguma recomendação sobre o que não enviar por e-mail e fui informado que os e-mails chegam primeiramente para o chefe dela, que então os repassa. Ou seja, ficou evidente que haveria um filtro. Ao ver o endereço do e-mail, notei que não era pessoal – era o e-mail da KITC, a agência de turismo oficial do governo. Ou seja, por ser uma agência de turismo, eles têm acesso a e-mail – mesmo assim, restrito ao chefe.

Mãos atadas

Quando visitamos a Biblioteca de Pyongyang, vimos alguns norte-coreanos estudando. Foi o primeiro espaço público, monumento ou museu que visitamos em que vimos algum cidadão no local. Assim que chegamos, fui convidado a me sentar e me trouxeram alguns livros. Entre eles, o “Diário de Anne Frank” em coreano. Disseram que a biblioteca conta com mais de 300 mil livros. Fizeram questão de enfatizar que têm acesso à literatura de todos os países do mundo. Para provar, junto aos livros que me trouxeram, destacavam-se duas obras brasileiras de total irrelevância. Foram doadas, o que me faz crer que foi um excesso de tiragem que a editora precisou desovar. O mais curioso é que esses livros já estavam separados para nós antes de chegarmos, o que evidencia, mais uma vez, que, por sermos novamente os únicos turistas no local, esforçavam-se para um ótimo atendimento que, às vezes, parecia uma tentativa de “vender” a imagem do país para nós (talvez, de forma semelhante ao que fazemos quando recebemos algum estrangeiro e buscamos agradar em tudo). Sinceramente, fica difícil saber se estão encenando ou apenas sendo gentis.

Sendo apresentado aos livros da Biblioteca Nacional. Foto: Arquivo pessoal

Sala de leitura da Grande Casa de Estudo do Povo (Biblioteca Nacional). Foto: Arquivo pessoal

Embora queiram provar o tempo todo que estão informados sobre tudo o que acontece no mundo, às vezes, no meio de uma conversa, percebemos o quão desconectados estão.

A guia nos contou que descobriu a existência da homossexualidade muito recentemente. Sim, isso mesmo! Ela sequer imaginava a possibilidade de um homem se relacionar com outro homem, e o mesmo entre mulheres.

A informação me deixou bem intrigado, então quis explorar mais o tema. Perguntei se ela nunca tinha visto um homossexual, se foi isso que ela quis dizer, e ela disse que não, que não sabia da existência mesmo. Questionei se nunca ouviu falar de qualquer caso de homossexuais na Coreia do Norte e ela respondeu que nem ela nem ninguém de sua família, amigos ou o seu namorado, que é uma pessoa importante, estudada e fala quatro idiomas. Ela contou que só ficou sabendo da existência de homossexuais porque recebeu um casal gay de turistas. Me disse que contou para a família, os amigos e para o namorado, e todos disseram que ela estava fazendo uma piada, que isso é impossível, que simplesmente não existe.

A guia contou que ficou sabendo da existência da cirurgia de mudança de sexo apenas no ano passado – e nem cogitou contar para alguém, já que nem na homossexualidade acreditam.

Algumas determinações do governo chegam a eles com explicações esdrúxulas, mas, sem qualquer acesso a conteúdo não manipulado, acreditam sem questionar.

O fato de apenas pessoas escolhidas a dedo poderem ter carro, que também é dado pelo governo, é justificado pelo controle da poluição. Segundo eles, preocupado com a saúde do povo, o governo resolveu restringir a posse de automóveis apenas para quem precisa. Coincidentemente, “quem precisa” são pessoas do alto escalão do partido e do governo.

Músicas e filmes estrangeiros precisam passar pela aprovação do governo antes de chegar às pessoas. A guia, por ter uma irmã que viaja à China eventualmente, tem acesso a alguns conteúdos que outras pessoas não têm. Ela já ouviu Britney Spears, Celine Dion e Taylor Swift, mas prefere as músicas norte-coreanas mesmo. Assistiu “Frozen” e ficou encantada. Perguntei como ela teve acesso ao filme e ela me informou que foi autorizado pelo governo para aulas de inglês, por isso conseguiu assistir.

Durante o dia, conversávamos muito sobre tudo e nos divertíamos demais. Demos muitas risadas e tivemos ótimos momentos com a guia, porém, ao final do dia, quando eu e minha esposa parávamos para conversar sobre tudo o que vimos e ouvimos, éramos acometidos de um sentimento de remorso por sabermos a “verdade” e não poder fazer nada. Qualquer coisa que tentássemos dizer iria necessariamente questionar o regime ou os grandes líderes, e isso seria recebido como uma grande afronta e desrespeito. Além disso, mesmo a guia, que tinha algum acesso ao mundo fora da RPDC, mostrava-se totalmente manipulada pelo regime. Como todos os norte-coreanos, sofreu uma terrível lavagem cerebral desde a infância, sendo doutrinada e modelada sob a regência de uma elite que tem interesse em manter um povo submisso e sem questionamentos.

Ver uma pessoa tão querida, divertida e jovem nessa prisão física e mental dava uma enorme tristeza. Minha esposa chegou a chorar uma noite. Enquanto eu tentava dizer que estávamos de mãos atadas, que qualquer mudança naquele país levaria gerações e que não os veríamos livres, nos consolávamos com o pensamento de que, de alguma maneira, eles tinham seus momentos de felicidade, afinal, “quem nunca viu o mar, se alegra com um riacho”.

No próximo post, irei explicar passo a passo como ir para a Coreia do Norte, a documentação necessária, valores e todo o resto.

Coréia do Norte – Como viajar para lá (Parte 10)

Começar a série pela Parte 1 (Mitos e Verdades)

 


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