Coréia do Norte – A Bolha (Parte 9)

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A Coréia do Norte é o país mais fechado do mundo. O governo controla com mão de ferro qualquer possível interferência cultural que a população possa receber de fora sob o pretexto de defender a cultura, os costumes e o território do imperialismo americano. No entanto, ao que me parece, o objetivo é na verdade ter o domínio da comunicação para dominarem a população. Privados do contraditório, eles nunca irão se rebelar contra o regime.

Mídia

O governo controla toda a informação que chega aos cidadãos, filtrando as notícias que só interessam ao governo, distorcendo fatos ou nitidamente manipulando dados para construir uma narrativa de constante tentativa de invasão americana no país de modo a dar sustentação às medidas de controle que o estado impõe fortemente.

Jornal estatal no Metrô de Pyongyang. Foto: Arquivo Pessoal

Na semana em que cheguei na RPDC, a notícia de que um alto executivo da Huawei, gigante chinesa de celulares, havia sido preso no Canadá rodava o mundo. Esta informação havia chegado a eles, até porque a China é um parceiro ideológico e esta notícia interessava ao governo por fortalecer a narrativa de perseguição política. Porém, na mesma semana a China prendeu um canadense que mora em Dandong e se chama Daniel. Ele é bem famoso na Coréia do Norte por ter uma agência de turismo que vende pacotes para a RPDC, além de ter conhecido o Grande Lider Kim Jong-un pessoalmente e ter levado o jogador de basquete Dennis Hodman para visitar o país. Daniel foi preso pelo governo da China em retaliação a prisão do executivo da Huawei e isto gerou um grande problema diplomático. Esta notícia já não chegou até os norte-coreanos.

Mas o caso que mais me assombrou e que exemplifica bem como as informações chegam manipuladas por lá foi o caso do americano que foi preso por tentar roubar um cartaz do 5o. andar do mesmo hotel que eu fiquei hospedado. Trata-se de um andar exclusivo para os funcionários – o número 5 sequer consta disponível no elevador social. Ele subiu pelas escadas e foi visto pelas câmeras de segurança, consequentemente, foi preso e condenado a 15 anos de prisão em um campo de concentração e também a realizar trabalhos forçados. Dois anos depois ele foi devolvido para os EUA em coma e poucos dias depois veio a falecer.

Este jovem era um simples turista de 22 anos que foi viajar com os amigos e que bebeu demais e fez uma idiotice. No entanto, a história oficial que chegou na Coréia do Norte é a de que ele era um agente infiltrado da CIA e que iria receber recompensas em dinheiro para roubar símbolos do Grande Líder. Segundo a guia, ele não tentou roubar um cartaz, mas sim uma placa de metal que tinha o nome do Grande Líder, mas que por ser um material muito pesado, ele não conseguiu levar, mas seu interesse era vender este símbolo para a CIA. Ele teria inclusive assumido isto em julgamento.

Segundo a CIA, o jovem foi torturado e recebeu maus tratos e por isto voltou em coma. Já para os norte-coreanos, ele pegou alguma doença, uma virose ou algo assim, pelo menos esta foi a notícia oficial.

Foi muito difícil segurar o riso nesta hora, confesso, afinal, qual interesse a CIA teria em “símbolos do Grande Líder”?

Esta situação ilustra bem dois efeitos da bolha em que vivem: primeiro que a notícia foi totalmente distorcida para os norte-coreanos, e segundo que eles realmente acreditam que o Grande Líder tem alguma relevância para o mundo. Como eles idolatram os Grandes Líderes e absolutamente qualquer objeto que faça referência a eles, os norte-coreanos pensam que o mundo tem a mesma admiração pelos seus heróis e deuses nacionais, até porque, foram ensinados desde a infância que os Grandes Líderes e a RPDC tem grande relevância mundial.

Hotel Yanggakdo, o mesmo onde o rapaz roubou um cartaz e onde eu fiquei hospedado. Foto: Arquivo Pessoal

A RPDC tem 3 canais de TV. Destes três, dois funcionam durante a semana, mas um é cópia da programação do outro. E um terceiro canal só funciona aos finais de semana e passa filmes norte-coreanos. Eu assisti bastante a programação de TV deles enquanto eu estive lá e notei que apenas um canal estava ativo.

A programação da TV é basicamente formada de clipes musicais que narram a história dos Grandes Líderes ou exaltam as belezas naturais ou a grande dedicação do povo na construção do país. Boa parte da programação também é para mostrar o que o governo tem feito de bom para a população. Cenas emocionadas de entrega de creches ou moradias são narradas de forma apoteótica. Pessoas chorando de gratidão e fazendo reverências ao grande líder são frequentes.

Cenas do Grande Líder Kim Jong-un visitando indústrias, escolas, mercados e navios de pesca, e opinando sobre absolutamente tudo, são muito frequentes também. Ele determina alterações nas embalagens de salgadinhos, na construção de casas, na decoração de escolas etc. Ao lado dele, umas 6 ou 8 pessoas do alto escalão do governo estão sempre munidas de um caderninho e uma caneta anotando, ou fingindo anotar, tudo o que o Grande Líder fala. Segundo a guia, Kim Jong-un, assim como o seu pai e seu avô, possui grandes conhecimentos e tem muito a ensinar e por isto estas pessoas anotam tudo: por serem considerações altamente relevantes e também para lembrarem de executar tudo depois. No entanto, ficou evidente que querem passar a imagem de um ser onisciente, sobre-humano e infalível, o que torna suas decisões irretocáveis e irrefutáveis, desestimulando o povo a questionar qualquer decisão tomada por ele.

A DPDC tem rádio e jornal, mas tudo estatal também. Não existe mídia independente no país. A Internet também não existe para eles. Eles usam no celular uma espécie de intranet fechada apenas para o próprio país. A guia chegou a me passar o email dela e pediu para mandarmos notícias da gente, afinal, fizemos uma boa amizade. Eu perguntei para ela se ela tinha alguma recomendação sobre o que não mandar por email para ela, e ela me informou que os e-mails chegam para o chefe dela e este irá repassar o email para ela, ou seja, ficou evidente que haveria um filtro. Ao ver o endereço do email notei que não era pessoal, era o email da KITC, a agência de turismo oficial do governo. Ou seja, por ser uma agência de turismo eles tem acesso a email, apenas isto, e mesmo assim restrito apenas ao chefe.

Mãos atadas

Quando visitamos a Biblioteca de Pyongyang vimos alguns norte-coreanos estudando. Foi o primeiro espaço público, monumento ou museu que visitamos e que vimos algum norte-coreano no local. Assim que chegamos, fui convidado a me assentar em uma carteira e então trouxeram alguns livros para eu ver. Entre eles, o Diário de Anne Frank em coreano. Eles disseram que a biblioteca conta com mais de 300 mil livros do mundo todo. Fizeram questão de enfatizar que eles têm acesso à literatura de todos os países do mundo. Para provar isto, junto aos livros que me trouxeram, tinha 2 livros brasileiros de absolutamente total irrelevância. Eles receberam de doação, o que me faz crer que foi excesso de tiragem que a editora precisou desovar. O mais curioso é que estes livros já estavam separados para nós antes de chegarmos, pois foi tudo muito rápido, o que evidencia mais uma vez que, por sermos novamente os únicos turistas no local, eles querem dar sempre um ótimo atendimento, mas que as vezes dá também a impressão de que querem “vender” a imagem do país para nós, talvez de forma semelhante a que fazemos quando recebemos algum estrangeiro e queremos agradar em tudo. Sinceramente, fica difícil saber se estão encenando ou apenas sendo gentis.

Sendo apresentado aos livros da Biblioteca Nacional. Foto: Arquivo Pessoal

Sala de leitura da Grande Casa de Estudo do Povo (Biblioteca Nacional). Foto: Arquivo Pessoal

Embora eles queiram provar o tempo todo que estão informados de tudo o que acontece no mundo, as vezes no meio de uma conversa percebemos o quão desconectados do mundo eles estão.

A guia nos contou que muito recentemente ela descobriu que existia homossexualidade. Sim, isto mesmo, ela sequer imaginava que poderia existir no mundo a possibilidade de homem se relacionar com homem ou mulher com mulher. Esta informação me deixou bem intrigado e por isto eu quis explorar mais o tema. Perguntei se ela nunca tinha visto algum homossexual e se foi isto que ela quis dizer, e ela disse que não, que não sabia da existência mesmo. Questionei se ela nunca ouviu falar de qualquer caso de homossexuais na Coréia do Norte e ela disse que nem ela, nem ninguém de sua família, amigos e nem o seu namorado, que é uma pessoa importante, estudada e fala inclusive 4 idiomas. Ela conta que só ficou sabendo da existência de homossexuais porque recebeu um casal gay de turistas. Ela disse que contou isto para a família, para os amigos e para o namorado e todos disseram que ela estava fazendo uma piada, que isto é impossível, que simplesmente não existe.

A guia contou que apenas no ano passado ficou sabendo que existe cirurgia para mudança de sexo. Ela nem cogitou contar isto para ninguém. Eles ainda não acreditaram nem na parte da homossexualidade ainda…

Algumas determinações do governo chegam a eles com alguma explicação esdrúxula, mas eles, sem terem qualquer acesso a conteúdo não manipulado, acreditam sem questionar.

O fato de apenas pessoas escolhidas a dedo pelo governo poderem ter carro, que também é dado pelo governo, é justificado pelo controle da poluição. Segundo eles, preocupado com a saúde do povo, o governo resolveu restringir a posse de automóveis apenas para quem precisa. Coincidentemente, “quem precisa” são pessoas do alto escalão do partido e do governo.

Filmes e músicas estrangeiras precisam passar pela aprovação do governo para as pessoas terem acesso. A guia, por ter sua irmã que viaja para a China eventualmente, tem acesso a alguns conteúdos que outras pessoas não têm. Ela já ouviu Britney Spears, Celine Dion e Taylor Swift, mas prefere as músicas norte-coreanas mesmo. Ela assistiu Frozen e ficou encantada. Perguntei como ela teve acesso ao filme e ela me informou que o filme foi autorizado pelo governo para aulas de inglês e ela conseguiu assistir por causa disto.

Durante o dia nós conversávamos muito sobre tudo e nos divertíamos demais. Demos muitas risadas e tivemos ótimos momentos com a guia, porém, no final do dia, quando eu e minha esposa parávamos para conversar sobre tudo o que vimos e ouvimos no dia, éramos acometidos de um sentimento de remorso por sabermos “da verdade”, mas não podermos fazer nada. Qualquer coisa que tentássemos dizer iria necessariamente questionar o regime ou os grandes líderes, e isto seria recebido como uma grande afronta e desrespeito. Além disto, mesmo ela que tinha algum acesso ao mundo de fora da RPDC, mostrava-se totalmente manipulada pelo regime. Ela, como todos os norte-coreanos, sofreram uma terrível lavagem cerebral desde a infância, sendo doutrinados e modelados sob a regência de uma elite que tem interesse em manter um povo submisso e que não questione nada.

Ver uma pessoa tão querida, tão divertida e tão jovem, nesta prisão física e mental dava uma enorme tristeza. Minha esposa chegou a chorar uma noite e, enquanto eu tentava dizer que estávamos de mãos atadas e que qualquer mudança naquele país levaria gerações e que não os veríamos livres desta prisão, tentávamos nos consolar nos convencendo de que, de alguma maneira, eles tinham seus momentos de felicidade, afinal: quem nunca viu o mar, se alegra com um riacho.

No próximo post irei explicar passo-a-passo como ir para a Coréia do Norte, como é a documentação, valores e tudo mais.

Coréia do Norte – Como viajar para lá (Parte 10)

Começar a série pela Parte 1 (Mitos e Verdades)

 


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