Coréia do Norte – O país mais fechado do mundo (Parte 2)

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Por que cargas d’agua alguém resolveria visitar a Coréia do Norte? O que tem de interessante para ser visto neste país? É perigoso? É complicado de chegar? É caro? O que é mito e o que é verdade? Como é a vida do norte-coreano? Por que eles têm tanta devoção aos grandes líderes? São muitas perguntas, muitas curiosidades e que eu vou tentar responder e explicar todas elas baseado na experiência que eu tive neste país que eu sonhava tanto em conhecer.

O motivo da viagem

Como sou apaixonado por história e em especial o período pós Segunda Guerra Mundial, passando pela Guerra Fria até o colapso do Socialismo, era um sonho poder visitar um país que ainda vive como a URSS nos anos 60, e que, na minha opinião, foi o que conseguiu implementar de maneira mais efetiva e com mais “sucesso” o socialismo. Embora eu não consiga concordar com quase nada desta ideologia, acho intrigante e altamente relevante para a história mundial. Sendo assim, conhecer a Coréia do Norte, ou a RPDC (República Popular Democrática da Coréia, como eles preferem ser chamados) era quase que uma missão de vida, e foi muito bem-sucedida.

Estação de trem em Pequim. Foto: Arquivo Pessoal

No último post desta série darei todas as dicas e informações importantes sobre como viajar para lá. No entanto, vou repassar a primeira e a mais importante dica que eu recebi e que norteou toda a minha visita e também a forma como pretendo retratar toda esta experiência: Respeito! É preciso ter a mente aberta e respeitar o povo norte-coreano e a devoção que eles têm aos grandes líderes e ao socialismo. Não é adequado, não por questões de segurança, mas por educação mesmo, questionar o regime, os líderes e as crenças deles. Por mais que você possa discordar de muita coisa, como eu discordo, é preciso fazer um esforço para tentar entender a complexidade da história deste país e o que levou eles a chegarem onde estão hoje, mas sempre fazendo isto com enorme respeito, pois são pessoas que sofreram muito no passado e, de forma diferente, continuam sofrendo no presente.

Corredor das cabines no trem para Pyongyang. Foto: Arquivo Pessoal

As Regras

Existem muitas regras que precisam ser respeitadas para esta viagem, e as principais são:

  • Não levar nenhum livro, revista, folheto, cartaz ou qualquer material que fale sobre a Coréia do Norte e/ou seus Líderes (de forma positiva ou não, não importa);
  • Não levar nenhum livro ou item religioso, de qualquer religião, incluindo a Bíblia, claro.
  • Não levar nenhuma roupa, bottom, ou qualquer distintivo que tenha a bandeira dos EUA, do Japão ou da Coréia do Sul;
  • Americanos, Japoneses, Sul-coreanos, fotógrafos profissionais, escritores e jornalistas tem acesso restrito e o processo para o visto é bem mais complexo e burocrático. A agência deixa a entender que bem possivelmente não serão aceitos;
  • É preciso se comprometer a não publicar em nenhuma mídia qualquer coisa relacionada a viagem. Na ocasião, informei que eu tinha um blog pessoal e que eu gostaria de postar sobre minha experiência nesta viagem em meu blog, mas deixando claro que eu não era jornalista, apenas alguém que gosta de viajar e relatar as experiências de viagem. Passei o link do meu blog e fui informado de que não haveria problemas eu postar sobre a viagem aqui. Ufa!
  • É permitido levar celular, mas as fotos do celular não podem ter a marcação de GPS. Também é preciso ter em mente que a qualquer momento algum oficial do exército ou do governo poderá querer ver o que tenho no celular, e irão vasculhar inclusive conversas de whatsapp, e-mails e afins para ver se tem alguma informação sobre o país e os líderes, principalmente material jocoso. O que seria um grande problema;
  • Câmeras fotográficas profissionais são permitidas, mas existe um máximo de capacidade de lente que você pode levar. O objetivo é que você não tire fotos de longa distância;
  • Não é permitido entrar com o broche que tem a foto dos grandes líderes ou dinheiro norte-coreano de souvenir (que são vendidos em Dandong na divisa). Os boches são dados pelo Partido aos membros ou a estrangeiros que demonstrarem grande contribuição ao país, logo, usar um broche falso é praticamente um crime. Como não se pode ter acesso ao dinheiro local deles, também tem pessoas que vendem dinheiro falso como souvenir, e entrar com este dinheiro é crime e pode ter sérias consequências;
  • Material pornográfico ou sexual, drogas e armas também não são permitidos.


Durante a viagem, outras regras precisarão também ser respeitadas:

  • Você nunca poderá andar sozinho em nenhuma parte da cidade, nem do lado de fora do hotel. Sempre você precisará estar acompanhado de um guia;
  • Você não pode tirar foto ou gravar vídeo do que você quiser e onde quiser. É preciso sempre pedir autorização para os guias;
  • Não é permitido tirar foto dos monumentos dos grandes líderes cortando parte da foto ou pegando as costas. A foto precisa sempre pegar o corpo inteiro e de frente;
  • É preciso sempre demonstrar muito respeito aos grandes líderes e em diversas situações você precisará prestar reverência se curvando a eles. Se você tiver alguma restrição a isto, repense sua ida à RPDC. Em uma determinada situação você será convidado a levar flores aos pés da estátua, e isto deve ser feito com grande respeito também;
  • É sinal de desrespeito se agachar para tirar foto do monumento dos grandes líderes, assim dobrar fazendo vinco ou colocar qualquer coisa (como uma carteira, ou um copo) em cima de um jornal ou folheto que tenha a foto de um deles. Em um dos lugares visitados, o Palácio do Sol, onde os corpos deles se encontram embalsamados e expostos, é preciso ir de camisa, gravata e respeitar mais regras de respeito e solenidade, como não andar de mãos nos bolsos ou mãos para trás, e manter-se em fila, em linha e completo silêncio durante toda a visita.
  • É também recomendável não se referir ao país como “Coréia do Norte”, mas sim, como “DPRK” (RPDC).
  • Não é permitido abordar as pessoas nas ruas, puxar papo com os locais sem autorização dos guias. Assim como também tirar fotos de militares e pessoas em cima de caminhão. Na dúvida, sempre perguntar e não questionar;
  • Seu passaporte ficará retido durante toda a viagem, sendo entregue a você apenas no último dia quando estiver indo embora. Sei que soa muito estranho, mas é a regra deles e é preciso respeitá-la se quiser visitar o país.

Muitas pessoas ficam preocupadas se é de fato seguro viajar para a Coréia do Norte, e posso afirmar que sim. Tive ótimos momentos lá e foi tudo absolutamente tranquilo. No entanto, é preciso ter em mente que você só terá uma viagem tranquila se respeitar as regras. Caso deixe de respeitar alguma delas, ou aja de forma muito desrespeitosa, aí sim sua viagem poderá ser um fiasco e, dependendo do grau de desrespeito que você cometer, poderá ter sérias consequências. Em qualquer país do mundo, fazer um sinal com o dedo do meio da mão para uma estátua, não te acontece nada, mas na Coréia do Norte pode resultar em pena de morte. Então, respeite as regras, não tente ser um espertão e tudo vai dar super certo.

A Chegada

A viagem começou saindo de São Paulo, fazendo uma escala na Etiópia e chegando em Pequim na China. Foram 27 horas de vôo até lá. Em Pequim, fizemos alguns passeios por lá e depois seguimos de trem para Dandong, cidade chinesa que faz divisa com a Coréia do Norte, e depois pegamos outro trem para Pyongyang, capital da Coréia do Norte. Existe a opção de ir de avião de Pequim para Pyongyang, mas preferimos ir de trem para podermos conhecer o interior do país, e foi a decisão mais acertada, embora tenha sido mais 24 horas de trem para chegar até a capital norte-coreana.

Estátua de Mao Tsé Tung – Dandong – China (divisa com a Coréia do Norte). Foto: Arquivo Pessoal

Assim que saímos de Dandong e cruzamos a divisa com a Coréia do Norte, é inegável que dá um friozinho na barriga. A primeira coisa que vi foi um parque de diversões abandonado e as primeiras imagens dos grandes líderes. Dez ou quinze minutos depois, chegamos na alfândega e passamos por um longo processo de checagem das malas, equipamentos eletrônicos, revistas com detector de metais etc. Eu estava portando o livro 1822 de Laurentino Gomes, e ele foi checado e chacoalhado. Minha esposa estava com um livro intitulado “Líderes extraordinários”. Assim que o oficial do exército viu a palavra “Líderes”, pegou o livro e saiu para consultar com outra pessoa sobre seu conteúdo. Confesso que deu um certo receio na hora, mas logo tudo se resolveu. O processo todo levou cerca de 2 horas e durante este período não poderíamos abandonar nossa cabine, ou pelo menos não era o recomendável para quem não fosse norte-coreano.

Assim que as revistas foram concluídas o trem partiu e os passageiros começaram então a comer peixe seco, que eles “rasgavam” com as mãos e tomando cerveja norte-coreana. Muitos estavam com sacolas imensas cheias de coisas que traziam da China. Muitos passageiros eram norte-coreanos que tinham ido à China para resolver assuntos de trabalho. Norte-coreanos podem sair do país, mas o processo é muito burocrático e, em geral, não são autorizados. Apenas pessoas que conseguem comprovar real necessidade tem esta autorização, e normalmente são pessoas do alto escalão do governo. Além disto, as viagens para fora da Coréia do Norte são apenas para países alinhados ideologicamente, como China e Cuba, e em tempos passados, com a URSS e países do leste europeu que também eram socialistas.

Banheiro do Trem para Pyongyang – Coréia do Norte. Foto: Arquivo Pessoal

Na volta existe o mesmo processo de checagem, vasculhando as malas e analisando tudo o que você está levando da Coréia do Norte. Durante a ida, eu me restringi a não tirar nenhuma foto do caminho ou gravar qualquer vídeo. Respeitei rigorosamente as regras que me foram orientadas. Já na volta, eu me arrisquei um pouco mais e tirei diversas fotos e gravei diversos vídeos do interior do pais (mas ainda respeitando as regras que recebi das guias). Na divisa, os oficiais do governo estavam vasculhando malas e começaram a analisar os celulares das pessoas. Eu então corri para mover todas as fotos que por alguma razão poderiam ser consideradas “não autorizadas” para uma pasta oculta do celular para evitar transtornos. Deu um tremendo frio na barriga pois eram muitas fotos e vídeos e estava demorando para serem movidas e o oficial já estava terminando de revistar a mala e iria pedir meu celular. No entanto, neste momento, fui “salvo” por um livro que ganhei no Palácio do Sol com fotos do local e dos grandes líderes. Ele, ao ver o livro, perguntou minha opinião e eu, claro, elogiei o local e os grandes líderes. Neste momento ele me cumprimentou e encerrou a checagem não olhando meu celular. Ufa!

Estação de Trem de Pyongyang – Coréia do Norte. Foto: Arquivo Pessoal

Em outro post irei relatar o que vi durante a viagem de trem, com fotos e vídeos do interior do país que irão revelar coisas muito interessantes sobre os costumes e sobre o regime.

No próximo post irei explicar quem são os Grandes Líderes, por que eles são tão importantes e tão reverenciados pelos norte-coreanos e também algumas curiosidades e algumas coisas até engraçadas sobre o comportamento das pessoas quanto aos grandes líderes.

Trem de Pyongyang – Coréia do Norte. Foto: Arquivo Pessoal

Coréia do Norte – Os Grandes Líderes (Parte 3)

Começar a série pela Parte 1 (Mitos e Verdades)

 


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