Coreia do Norte – Os Grandes Líderes (Parte 3)

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É praticamente impossível andar pela Coreia do Norte e não se deparar com inúmeras imagens, estátuas e homenagens aos grandes líderes do país. A devoção do povo norte-coreano a eles é extrema, carregada de enorme respeito e gratidão. São personagens que dão nome a todos os principais pontos da cidade e, até, a algumas flores. Nada representa mais a Coreia do Norte do que seus grandes líderes. Aqui, irei apresentá-los e contar algumas curiosidades que aprendi e vivenciei durante minha visita a este incrível país.

Kim Il-sung

Kim Il-sung. Imagem: NK News

Líder supremo, Kim Il-sung é o eterno presidente da RPDC (Coreia do Norte). Ou seja, ninguém mais tem direito a portar o título, mesmo após seu falecimento, em 1994.

Seu nome significa “torne-se o sol”. Segundo as guias, ele é de fato o Sol, pois mostra o caminho que as pessoas devem seguir. O dia de seu nascimento é feriado nacional, assim como a data de sua morte. Além disso, seu nascimento é o marco zero para a contagem do ano norte-coreano, que é precedido do termo “Juche” (explicarei em outro post) – sendo assim, 2018 é o ano Juche 107.

Kim Il-sung foi membro do Partido Comunista da China, ficou exilado na URSS durante a Segunda Guerra Mundial e, após grande influência do comunismo-leninista, criou a Ideia Juche, base filosófica do regime que ele viria a implementar no país a partir de 1945, quando, por indicação de Stalin, assumiu o governo da península do Norte da Coreia, que já havia sido ocupada pela URSS durante a II Guerra, tomada do Japão. A partir de 1948, ele iniciou um forte sistema de culto ao líder (no caso, ele mesmo), além de criar controles contra influência cultural externa, extinguir a propriedade privada e instaurar um estado socialista rígido e extremamente fechado.

Arco do Triunfo de Pyongyang, o maior do mundo. Construído em Homenagem a Kim Il-sung. Foto: Arquivo pessoal

Para os norte-coreanos, a história é um pouco diferente. Dizem eles que a família de Kim Il-sung já se dedicava, desde o século XIX, à proteção do seu país contra tentativas de invasão dos EUA, iniciadas por volta do ano 1860, quando o pai de Kim Il-sung teria expulsado um navio americano que sondava a região.

Durante as guerras, Kim Il-sung teria se refugiado nas montanhas Myohyang por 20 anos, elaborando a filosofia Juche e se protegendo dos japoneses e dos americanos. Seus familiares teriam sido todos mortos em confrontos. Após este período, ele teria descido do monte para assumir o país e lutar contra os EUA na Guerra da Coreia, que, segundo eles, não foi iniciada pela península do Norte, como conta a história oficial, mas sim, pelos EUA, que dominavam a península do Sul.

Um forte sistema de blindagem contra influências ocidentais – principalmente dos EUA – e religiosas foi criado. Informações, noticiários, livros, músicas, tudo passou a ser controlado pelo Estado. A história do país foi reescrita para engrandecer sua personalidade, atribuindo a ele feitos heroicos, incríveis conhecimentos em todas as áreas e uma enorme devoção ao seu próprio povo. Assim, o povo norte-coreano foi, geração a geração, sendo ensinado que seu passado de sofrimento terminou graças ao Grande Líder e Eterno Presidente Kim Il-sung, o que rendeu enorme devoção e gratidão.

Kim Il-sung Square, local das grandes apresentações. Foto: Arquivo pessoal

Além disso, fortes repressões foram aplicadas a quem ousasse se contrapor ao regime, criando um estado de medo na população e inibindo qualquer ação que pudesse ser entendida como antiestado ou desrespeitosa. Em uma conversa que tive com uma das guias, perguntei, com muito jeito, se há pessoas que discordam de alguma medida do governo ou de alguma decisão do Grande Líder. Fui respondido enfaticamente: “Por que alguém não iria concordar com o regime ou com o Grande Líder? Tudo o que ele faz é pelo povo, tudo é para o povo. Ele dá sua vida para o povo, como alguém poderia ser contra isto? Eu, particularmente, não tenho absolutamente nada, nem a menor que seja, observação ou crítica quanto ao regime ou ao Grande Líder”. Sinceramente, fiquei em dúvida se a resposta foi totalmente sincera ou se houve algum medo de transparecer que ela poderia ter alguma crítica, por menor que fosse, contra o regime, o que poderia render alguma retaliação. Minha tentativa de iniciar uma conversa sobre presos políticos foi frustrada. Meu desejo era avançar o assunto até os campos de concentração, que reúnem mais de 200 mil pessoas, incluindo idosos e crianças, que são torturadas, estupradas, assassinadas e executam trabalho forçado por até 16 horas diariamente.

Sua morte, em 1994, foi recebida pelo povo norte-coreano com profunda e inconsolável tristeza. Pessoas não conseguiram aceitar como uma divindade poderia morrer. Muitas se jogavam ao chão chorando compulsivamente. No Palácio do Sol de Kumsusan, onde o seu corpo e do filho Kim Jong-Il se encontram embalsamados e expostos para visitação, é possível encontrar incríveis esculturas mostrando o sofrimento do povo com a notícia de sua morte.

Esculturas de pessoas chorando a morte de Kim Il-sung, no Palácio do Sol de Kumsusan. Foto: Reprodução do livro que ganhei (dentro do palácio, é proibido tirar fotos)

Kim Jong-il

Kim Jong-il. Imagem: Veja

Filho de Kim Il-sung, assumiu o posto de Líder Supremo da Coreia do Norte após a morte de seu pai em 1994, ocupando, assim, o posto mais alto do país até 2011, quando veio a falecer.

No palácio do Sol de Kumsusan, um imenso mausoléu abriga seu corpo, também embalsamado e disponível para exibição. A sala onde o corpo é exibido é exatamente igual à sala onde encontra-se o corpo do seu pai. É uma imensa sala, de teto alto com iluminação vermelha. O corpo está ao centro, dentro de uma cúpula de vidro, impecável e vestido com sua roupa tradicional. Ao chegar no local, andamos em fila e, respeitosamente, fizemos três reverências em cada ponto (frente, lado direito e lado esquerdo) e, então, saímos. Inúmeras pessoas, de todos os lugares do país, estavam lá para reverenciar os grandes líderes. As mulheres com os tradicionais vestidos coloridos e os homens, de terno ou de uniforme de gala.

Palácio do Sol de Kumsusan, em Pyongyang. Foto: Arquivo pessoal

Neste mesmo palácio, é possível encontrar o vagão de trem onde Kim Jong-il faleceu. Ele tinha acabado de assinar um documento sobre pesca quando veio ao chão e morreu na hora. Quando perguntei para a guia a causa de sua morte, ela me respondeu: “Morreu porque se dedicou muito ao seu povo”. Não consegui disfarçar minha indignação com a resposta e, fazendo cara de interrogação, questionei: “Mas a causa da morte mesmo, qual foi?”. “O médico informou que ele não deveria sair de casa naquele dia, deveria repousar. Ele trabalhava muito pelo nosso povo e estava muito cansado, mas, mesmo assim, preferiu arriscar sua vida naquele dia e ir trabalhar pelo seu povo. Seu corpo não aguentou, e ele faleceu”, foi a resposta. Minutos depois, ela se aproximou de mim e disse: “Tudo indica que foi um ataque cardíaco, causado por estresse e excesso de trabalho”.

Vestido tradicional para cerimônias. Pyongyang Cultural Exibition. Foto: Arquivo pessoal

No Palácio do Sol de Kumsusan, também é possível encontrar o último carro utilizado por ele, bem como o último barco e as últimas roupas. Ele e o pai têm, cada um, uma imensa sala com honrarias recebidas de todos os países, além de dezenas de títulos de doutorado. Para cada um deles, há um imenso painel digital que mostra todos os países para onde viajaram, a quantidade de quilômetros percorridos por terra e por ar, além de indicações luminosas e caminhos em LED que exibem os trechos percorridos.

Último carro de Kim Jong-il. Foto: Reprodução do livro que ganhei (dentro do palácio, é proibido tirar fotos)

Último barco de Kim Jong-il. Foto: Reprodução do livro que ganhei (dentro do palácio, é proibido tirar fotos)

Roupa e títulos de doutorado de Kim Jong-il. Foto: reprodução do livro que ganhei (dentro do palácio, é proibido tirar fotos)

Vagão de trem onde Kim Jong-il faleceu e, na parede, painel com as viagens realizadas. Existe um idêntico na sala destinada a seu pai, Kim Il-sung. Foto: Reprodução do livro que ganhei (dentro do palácio, é proibido tirar fotos)

Homenagens a Kim Jong-il. Para todas as salas dedicadas a Kim Jong-il, há uma idêntica para Kim Il-sung. É evidente que buscam passar a imagem de que ambos são exatamente iguais em importância. Foto: Reprodução do livro que ganhei (dentro do palácio, é proibido tirar fotos)

É incrível a forma como exaltam feitos comuns para qualquer líder político mundial. Qualquer presidente de um país viaja muito, e nem por isso tem um painel com tamanha pompa para demonstrar suas viagens. Todos os chefes de estado recebem honrarias, placas de homenagens, títulos de doutorado (o Lula, por exemplo, recebeu mais de 30 títulos de doutorado), mas, para os norte-coreanos, isso é uma indicação clara do reconhecimento do mundo quanto às suas grandes habilidades e grandes feitos. Todos os presidentes e primeiros-ministros do mundo recebem presentes oficiais, milhares que cada um coleciona durante seu mandato, mas, para os norte-coreanos, não. Eles construíram dois enormes palácios para abrigar esses presentes. O principal deles, no monte onde Kim Il-sung teria passado 20 anos, abriga mais de 110 mil itens, em dezenas de salas divididas por países e continentes.

Exibição Internacional da Amizade. Foto: Arquivo pessoal

Como em todos os museus (com exceção do Palácio do Sol de Kumsusan), nós éramos os únicos visitando esses incríveis, imensos e espetacularmente decorados palácios e monumentos do país dedicados à sua história e aos grandes líderes. Neste palácio, nomeado Exibição Internacional da Amizade em Myohyang, assim que a guia local nos recebeu, fomos reverenciar a estátua dos grandes líderes, feita de cera, em tamanho real, em um impressionante painel panorâmico que, de tão realista, chegou a arrepiar. Depois, seguimos para ver os presentes, de incríveis peças de louça chinesa e esculturas em marfim até placas de homenagem em acrílico a máquinas e lentes fotográficas. Qualquer presente é exposto como um grande feito e honraria. Fomos levados para ver a seção com presentes do Brasil, que não chegavam a dez, todos de organizações ligadas à esquerda brasileira – o que, nacionalmente, representava um reconhecimento do Brasil como um todo para os grandes líderes. Os países que mais presentearam e mais honrarias ofereceram são os de alinhamento ideológico, como a antiga URSS, Cuba, Venezuela e China.

Exibição Internacional da Amizade. Foto: Arquivo pessoal

Ao final do passeio na Exibição Internacional da Amizade, fomos convidados a escrever um relato das nossas impressões sobre o local. Aliás, fomos constantemente indagados sobre se estávamos impressionados com tudo o que nos mostravam (de fato, muitas vezes ficamos realmente impressionados). Museus, palácios e monumentos como os que eles têm renderiam filas quilométricas em qualquer lugar da Europa, mas, ali, éramos sempre os únicos visitando. Por vezes, acendiam as luzes e ligavam as escadas rolantes quando chegávamos. Em alguns lugares, algo especial estava esperando por nós logo na entrada.

Kim Jong-il manteve a ideologia Juche e o culto à personalidade, incorporando o mesmo culto e a mesma devoção que já era tradição do seu pai. Por essa razão, são frequentes as imagens dos dois, lado a lado, com fotos e estátuas de igual tamanho.

Enquanto a principal razão de devoção ao pai é o fato de ter libertado o povo do domínio japonês e lutado contra os EUA na Guerra da Coreia, Kim Jong-il é reconhecido por ter conseguido resistir ao colapso do socialismo no mundo após a queda do muro de Berlim, em 1989, e mantido o país unido e firme contra a influência capitalista. Seu maior mérito foi ter criado um exército forte e imenso, um dos maiores do mundo. Há quem diga que 1/3 da população do país é militar, mas, segundo a guia, são apenas cerca de 10%, o que já é muita coisa para um país com 25 milhões de habitantes.

Grand Monument of Mansu Hill. Antes, era apenas a estátua de Kim Il-sung. Depois, foi incluída a estátua de Kim Jong-il – por ele mesmo, de igual tamanho. Foto: Arquivo pessoal

Perguntei a uma das guias se um dos grandes líderes era mais importante que o outro. Ela me respondeu que ambos têm a mesma importância e a mesma devoção do povo. No entanto, na minha percepção, o Presidente Kim Il-sung parece ter relevância e devoção maiores.

Exibição de Flores de Pyongyang. Foto: Arquivo pessoal

Assim como seu pai, Kim Jong-il foi homenageado com o nome atribuído a uma espécie de flor. Seu pai, Kim Il-sung, deu seu nome a uma espécie de begônia, enquanto o nome de Kim Jong-il foi para uma espécie de orquídea. Como não poderia deixar de ser, existe um salão decorado com todas as flores, quadros e honrarias de diversos botânicos do mundo homenageando os dois grandes líderes por nomearem essas flores.

Kim Jong-un

Kim Jong-un. Imagem: Getty Images

Filho de Kim Jong-Il e neto de Kim Il-sung, assumiu o posto mais alto do país aos 26 anos, em 2011, após a morte de seu pai. Não há foto ou homenagem a ele como para seu pai ou avô, no entanto, ele mantém a tradição de vestir-se da mesma maneira e está sempre rodeado de pessoas que anotam tudo que fala.

Quando perguntei à guia o porquê do pai de Kim Jong-un vestir-se sempre com a mesma roupa, a resposta foi que ele não aceitava roupas mais opulentas e procurava vestir-se de forma simples e sóbria, pois tudo ele doava ao povo. Quando deram roupas mais elegantes, ele as doou para o povo, não queria nenhuma riqueza ou bens – embora fosse proprietário de uma Mercedes-Benz, um iate e um trem, entre outras coisas.

Enquanto eu assistia ao único canal de TV do país, que, basicamente, só faz propaganda política e enaltece os grandes líderes, tentei capturar imagens das pessoas que ficam ao lado de Kim Jong-un anotando suas falas. Não foi difícil, já que a cena é muito frequente. Seja sobre a embalagem de um salgadinho, a construção de uma casa ou sobre pesca, ele sempre tem algo muito importante para dizer e que precisa de umas cinco ou seis pessoas anotando. Fica evidente que, muitas vezes, essas pessoas não anotam absolutamente nada, sendo apenas parte de uma encenação para mostrar sua sabedoria.

Eu perguntei para uma das guias por que as pessoas anotam tudo. Ela me respondeu que é para que tudo seja executado sem falhas. Também perguntei se ele opina sobre qualquer assunto e ela respondeu afirmativamente, que ele determina ações de qualquer natureza e todos executam sem questionar.

Logo depois que Kim Jong-un assumiu o poder, cuidou de eliminar possíveis adversários à sua consolidação como Líder supremo da RPDC. Em 2014, seu tio Jang Song-thaek que exercia a função de vice-presidente e foi o responsável por preparar a sucessão de Kim Jong-il, foi condenado à morte e assassinado por uma metralhadora antiaérea e seus restos mortais foram comidos por cães. Em 2017, Kim Jong-nam, irmão mais velho de Kim Jong-un e ferrenho crítico ao regime, morreu após ser envenenado na Malásia por duas mulheres norte-coreanas. Além destas pessoas próximas, a CIA calcula que desde quando assumiu o governo da Coreia do Norte, cerca de 140 pessoas foram assassinadas a mando de Kim Jong-un.

Conhecido como “Major” ou “Marechal”, Kim Jong-un iniciou conversas em busca de um caminho para a negociação de paz junto ao presidente americano Donald Trump. Eu perguntei para a guia como o povo norte-coreano vem recebendo essa notícia e ela me falou que, embora tenham grande ressentimento dos EUA, acredita que o Major está fazendo a coisa certa, que precisam apenas de tempo para aceitar melhor a aproximação entre os países. Apesar do rancor, querem viver em paz e, se para isso for necessário negociar com os EUA, que seja.

Kim Jong-un é casado, mas ainda não tem filhos. Perguntei à guia se a população se preocupa com a sucessão do posto de Supremo Líder e, segundo ela, existe grande expectativa para o anúncio de um herdeiro e novo sucessor, que será educado para liderar a Coreia do Norte.

No próximo texto, vou falar sobre a Ideia Juche, a filosofia criada por Kim Il-sung e base cultural e filosófica do regime.

Coréia do Norte – A Ideia Juche (Parte 4)

Começar a série pela Parte 1 (Mitos e Verdades)

 


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