Coréia do Norte – A Ideia Juche (Parte 4)

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A Ideia Juche, ou apenas Juche, é uma filosofia criada pelo eterno Presidente Kim Il-sung para ser a base teórica e filosófica do país e que iria determinar sua condução a partir da sua conversão ao comunismo.

Autossuficiência

Após a tomada do poder da região Norte da Coréia, Kim Il-sung, que havia sido treinado pela URSS e recebido forte influência marxista-leninista, resolveu fundar o seu país tendo como base o comunismo soviético em 1945, logo após a II Guerra Mundial. Porém, em 1955 ele introduziu a sua própria filosofia como base ideológica e de certa maneira teológica, alterando inclusive a constituição do país, substituindo o marxismo-leninismo pela filosofia Juche.

A imensa Torre Juche em Pyongyang. Foto: Arquivo Pessoal

Segundo a guia, a Ideia Juche pode ser resumida como “o homem é o senhor do seu próprio destino”. A tradução para Juche seria algo como “autossuficiência”, mas tanto pelo que eu já tinha lido a respeito, como pelo que eu presenciei, a Ideia Juche é muito mais do que isto.

Neste conceito de autossuficiência, está embutido um forte nacionalismo e uma independência econômica e cultural, fazendo com que se isolem totalmente do mundo e vivam restritos e fechados em seu próprio mundo.

Religião

Segundo a guia, as pessoas são livres para terem sua própria religião no país, e nenhuma religião é proibida. Segundo ela, cerca de 10% da população tem alguma religião, normalmente o budismo (imagino que devem ser as pessoas mais velhas, nascidas antes de 1945), no entanto, como a Idea Juche é exaustivamente e massivamente difundida nas escolas desde os primeiros anos, as outras gerações já não se interessam por nenhuma religião pois, segundo a guia, aprenderam com o passado do seu povo sofrido que era majoritariamente budista e que pedia para os deuses livrá-los da opressão e do sofrimento e nada acontecia e que só pela ação do homem e do povo unido e lutando junto é que conseguiram se libertar da opressão, logo, não faz nenhum sentido esperar nada de uma divindade, é preciso agir por si só.

Torre Juche em Pyongyang. Foto: Arquivo Pessoal

De forma contraditória, a própria Idea Juche estabelece o culto ao líder, onde ele deve ser reverenciado como um deus e tratado como uma divindade. Assim como em outros países comunistas, e seguindo a orientação de Marx de que a “religião é ópio do povo”, as religiões foram sempre alvo dos revolucionários comunistas. No entanto, é sabido que alguns hábitos não são possíveis de serem eliminados e que é muito mais fácil substituir um deus por outro do que extinguir divindades. Desta maneira que o culto ao líder é algo tão importante e fundamental em países comunistas e, no meu entendimento, a Coréia do Norte foi a que conseguiu implementar isto com maior sucesso, transformando seus grandes líderes em divindades vivas e adoradas e reverenciadas em vida.

Como dito no primeiro artigo da série, nós fomos proibidos de levar qualquer livro ou item religioso, o que contradiz a informação da guia de que as pessoas são livres para terem suas religiões. Nós chegamos a visitar um templo budista que fica na mesma região onde Kim Il-sung elaborou a Ideia Juche durante seu exílio de 20 anos no monte Myohyang. Este templo, que data do ano 1059, possui toda a estrutura normal de um templo budista contando inclusive com um monge (que não usava o broche tradicional com a foto dos grandes líderes). Lá, fomos convidados a acender um incenso e fazer um pedido, como em qualquer outro templo budista que já visitamos.

Hotel Hyansan que fica no topo do monte Myohyang, onde almoçamos. Foto: Arquivo Pessoal

Esta experiência antagonizou com a informação que temos de que qualquer religião é proibida, no entanto, também desconfiamos que algumas coisas são feitas apenas para turistas e para fazer propaganda política. Se realmente religiões não fossem um problema para o país, não seríamos proibidos de levar qualquer artigo religioso, incluindo budista.

Educação

Símbolo da Ideia Juche, a Foice, o Martelo e o Pincel.

O símbolo da Ideia Juche contém a tradicional foice (que representa o trabalhador rural) e o martelo (que representa o trabalhador urbano) símbolo do comunismo, mas adiciona um pincel tradicional de escrita coreana que, segundo a guia, representa o conhecimento e o estudo. Eles dão grande valor ao estudo, valorizando o professor acima de qualquer profissão. Os professores têm direito às melhores moradias e recebem descontos em diversas lojas. Inclusive, recentemente inauguraram uma enorme avenida com imensos prédios e uma completa estrutura para abrigar professores e cientistas em Pyongyang.

Complexo dos Professores e Cientistas em Pyongyang. Construído em apenas 1 ano e 9 meses. Foto: Arquivo Pessoal

Deuses vivos

Quando visitamos o templo budista a guia mostrou uma torre octogonal com diversos setores e com sinos em cada uma das 8 pontas de cada setor. Ela me desafiou a calcular quantos sinos aquela torre tinha, eu, que imaginei já do que se tratava, falei que era muito ruim em matemática e que iria demorar muito para calcular isto. Foi quando ela me respondeu que o Grande Líder Kim Jong-il calculou em alguns segundos quantos sinos tinham ali (era basicamente multiplicar 8 por 13), exaltando isto como um grande feito. Aliás, eles de fato acreditam que os grandes líderes possuem habilidades super-humanas e muitas histórias místicas rondam tanto o Presidente Kim Il-sung como o Supremo Líder Kim Jong-il, como o fato de uma estrela nova surgir no dia de seu nascimento, terem incríveis habilidades matemáticas, musicais, artísticas e literárias e até mesmo não defecarem (o que não tive coragem de confirmar).

Templo Budista em Myohyang. Foi totalmente restaurado a mando do próprio Kim Il-sung. Foto: Arquivo Pessoal

A filosofia da Ideia Juche deixou ser a principal filosofia do país a partir da década de 1990 quando Kim Jong-il, após a morte de seu pai, introduziu uma nova filosofia no país, o Songun.

Songun significa “militares primeiro” e surgiu num período em que Kim Jong-il precisou do apoio do Exército Popular da Coréia para assumir o lugar de seu pai que havia falecido, bem como para reagirem a forte e profunda crise econômica que abalou o país com o colapso do socialismo no mundo. Nesta mesma década eles ainda enfreram terríveis tragédias naturais cujos resultados como fome e sofrimento foram amenizados pela forte ação do exército, no entanto, mesmo assim, cerca de 2,5 milhões de pessoas morreram neste período.

Para ganhar a simpatia do Exército, Kim Jong-il resolveu elevar o status deles na sociedade dando mais prestígio e privilégios, criando a cultura de que apenas uma RPDC com um forte exército teria condições de resistir ao Imperialismo Americano e preservar a soberania de seu país.

O Songun não veio para substituir a Ideia Juche, mas sim, trazer uma nova filosofia para orientar o país frente aos novos desafios. Se no passado o Juche foi fundamental para criar um país independente, o Songun foi de fundamental importância para mantê-lo independente.

Mesmo não concordando em nada com estas teorias filosóficas, que, só existem na Coréia do Norte e que eles estudam como se fossem realmente filosofias de altíssima relevância mundial, posso dizer que elas funcionam perfeitamente, especialmente a Ideia Juche, pois ela conseguiu de fato substituir a religião pelo culto ao líder e as pessoas são incrivelmente devotas a eles, acreditando que eles são perfeitos e infalíveis, o que é o desejo de qualquer político que quer controlar um país para sempre.

De qualquer maneira, a Torre da Ideia Juche, que é um monumento enorme e incrível, é um dos pontos mais importantes da cidade e, do seu topo, é possível ter uma vista privilegiada de Pyongyang que você pode conferir no vídeo abaixo:

No próximo post irei contar sobre a separação da Coréia entre Norte e Sul, a Guerra da Coréia e os planos de reunificação da península.

Coréia do Norte – Uma só Coréia (Parte 5)

Começar a série pela Parte 1 (Mitos e Verdades)

 


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