Selk’nam e a Terra do Fogo – Patagônia

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Eles resistiram a 10 mil anos de frio intenso e ventos cortantes, mas não sobreviveram a 20 anos de colonização do homem branco.

Eu estava em Puerto Natales, na Patagônia Chilena quando tive contato pela primeira vez com imagens dos Selk’nam (também conhecidos como Onas). Eram fotos reais e intrigantes de homens pintados com faixas geométricas ou utilizando roupas e máscaras muito peculiares, assustadoras e cômicas ao mesmo tempo. Em Ushuaia, na Patagônia Argentina, me aprofundei um pouco mais na história desta que foi a última civilização da Terra do Fogo, que resistiu ao frio intenso e ventos cortantes da região por cerca de 10 mil anos, mas não sobreviveu a 20 anos de colonização do homem branco.

Fotos reais de Selk’nam. As pinturas eram em vermelho vivo.

Hain

No dia-a-dia os Selk’nam se vestiam com roupas quentes ou ficavam simplesmente nus, dependendo obviamente do clima. Suas roupas eram basicamente pele de guanaco, um tipo de lhama que existia e ainda existe em abundância na região. Mas era durante o Hain que as pinturas corporais, máscaras assustadores e roupas ou plumagens exóticas surgiam num ritual de passagem para os Kloeketen, os adolescentes meninos que estavam entrando na vida adulta.

Selk'nam ou Onas com seus trajes comuns.

Selk’nam com suas roupas feitas de guanaco

Durante meses os Kloeketen precisavam passar por diversas provas, como caçar, cozinhar, preparar chozas (cabanas) e tudo mais que seria útil em sua vida adulta. Tudo isto era de fato desafiador para eles, no entanto, o ponto alto mesmo do Hain era a cerimônia onde eles deveriam enfrentar terríveis espíritos do mal e lutar contra eles.

A história destes espíritos amedrontava toda a tribo. Cada um tinha um significado e todos conheciam eles pelos seus nomes: Tanu, Matan, Ko’taix e muitos outros. As mulheres em especial viviam aterrorizadas e tinham muito medo de submeter seus filhos para tal enfrentamento, no entanto, era um processo necessário para que um dia estivessem preparados para cuidar de toda a tribo.

Espíritos Selk'nam.

Os jovens selecionados eram pintados por inteiro de vermelho com listras brancas e levados até a choza principal, onde era acesa uma grande fogueira de onde os espíritos surgiam. Os garotos eram incentivados pelos adultos a lutar contra estes espíritos. Em determinado momento, quando eles conseguiam conter estes espíritos, o líder dizia para os garotos retirarem as máscaras dos espírios e, para a surpresa deles, descobriam que não eram espíritos coisa alguma, eram na verdade outros membros homens adultos da tribo que se passavam por espíritos. 

Kloketens prontos para o Hain.

O líder então explicava para os garotos que este segredo deveria ser guardado por eles na vida adulta pois as mulheres não poderiam jamais saber que os espíritos que controlavam a tribo eram na verdade os próprios homens disfarçados. E contava a história de sua civilização, uma história marcada pelo fim de um matriarcado para o início de um patriarcado.

A última cerimônia de Hain realizado por eles foi em 1933, e fotos registram os garotos pintados de vermelho e homens adultos com suas fantasias de espíritos.

 

Do Matriarcado ao Patriarcado

Os Selk’nam, diferentes de muitas outras tribos e civilizações (inclusive a nossa), não acreditavam em vida após a morte, justiça divina ou outras crenças similares. Na verdade, eles tinham sua própria história do mundo e esta história era a base de toda sua cultura.

Eles acreditavam que existia um tempo mítico chamado Hoowin, uma época onde o mundo era dominado pela Lua (Kreen) que era casada com o Sol (Kren). Nesta época, os homens eram submissos às mulheres, sendo obrigados a caçar, preparar alimentos, cuidar das crianças, montar as chozas e de todas as tarefas da comunidade, enquanto as mulheres dedicavam-se apenas a conversar e se divertir. Mas como as mulheres, sendo menos fortes dos que os homens, conseguiam ter tal domínio sobre eles? 

Mulheres Selk’nam. Foto: Martin Gusinde

Segundo a tradição, elas inventaram uma história para aterrorizar os homens. Era a história de Xalpen, um terrível monstro do submundo que desejava acabar com toda a tribo. De tempos em tempos Xalpen enviava alguns espíritos para a aldeia. As mulheres, corajosas que eram, tinham contato direto com estes espíritos e pediam aos homens para trazerem comidas para serem ofertadas a Xalpen com o objetivo de acalmá-lo, e com isto, as mulheres, sob a liderança de Kreen (Lua), conseguiam controlar os homens e eles obedeciam sem questionar.

Certo dia Kren (Sol) estava caminhando e viu as mulheres se preparando para começar o cerimonial onde os espíritos surgiriam, e ele percebeu que não existiam espíritos, eram apenas as próprias mulheres que se pintavam, usavam máscaras e roupas para se passarem por espíritos e assim enganar os homens.

Revoltado, Kren foi até os outros homens da tribo e contou o que viu. Neste momento todos os homens então começaram a perseguir todas as mulheres da tribo e matá-las. Ao matá-las, elas eram transformadas em outros animais, montanhas e tudo mais que existe no mundo. Já Kreen, a Lua, fugiu para o céu e Kren, o Sol, foi persegui-la sem nunca conseguir alcançá-la.

Os homens pouparam apenas as meninas que eram ainda crianças e que não conheciam o segredo das mulheres adultas, e com isto, deram continuidade a esta tradição, porém, agora eles se vestindo de espíritos, tendo assim total controle sobre as mulheres. Era o fim do Matriarcado e início do Patriarcado e também do surgimento dos Selk’nam.

Esta história era um segredo que apenas os homens adultos sabiam e que só era transmitido de uma geração para outra durante o Hain, o cerimonial de iniciação dos adolescentes meninos à vida adulta.

 

O Genocídio

Por milhares de anos os Selk’nam dominaram a região da Terra do Fogo, a Ilha Grande que fica no extremo sul do mundo: a Patagônia, uma área que hoje contempla parte do território chileno e argentino. Em 1520, Fernão de Magalhães chegou à região com o objetivo de mapear o local e logo percebeu que havia muitas fogueiras em todos os cantos, que não se apagavam nunca, nem de dia nem de noite. Eram os Selk’nam que, ao verem as embarcações chegarem, acenderam fogo para sinalizar que algo estranho estava acontecendo. Por esta razão, Fernão de Magalhães deu o nome àquela região de Terra do Fogo.

Homens Selk’nam caçadores posando para foto de Martin Gusinde.

Por mais de 300 anos os Selk’nam conseguiram manter sua rotina e sua vida sem interferência do homem branco. Os poucos contatos que tiveram foi para resgatar e socorrer náufragos que buscavam ajuda nas praias geladas da região. Os Selk’nam eram altos, com média de 1,80m de altura, também fortes e muito rápidos. Eram exímios caçadores, mas ao mesmo tempo, eram dóceis, tranquilos e até mesmo divertidos. 

Mas este cenário de paz começou a mudar a partir de 1879 quando o homem branco descobriu ouro na Ilha Grande, e também começou a utilizar os vastos pastos da região para criação de ovelhas. Os Selk’nam, caçadores que eram, acreditavam que as ovelhas estavam disponíveis para caça e eventualmente abatiam alguma para alimentação. Isto enfureceu os fazendeiros da região que passaram a oferecer recompensas para quem matasse os Selk’nam, pouco importando se eram homens, mulheres, idosos ou crianças. 

Selk’nam morto pela expedição Popper.

Em pouquíssimo tempo, milhares foram assassinados, outros milhares morreram de enfermidades causadas pelo convívio mais próximo com o homem branco e alguns foram transferidos para a Ilha Dawson para serem catequizados e convertidos ao cristianismo. Muitos foram levados para zoológicos de humanos na Europa para serem expostos como símbolo da superioridade da civilização europeia frente às tribais culturas do resto do mundo.

Nativos Selk’nam sendo levados para a Europa para serem exibidos em Zoo de Humanos, em 1899.

Em 1905 havia apenas 500 Selk’nam vivendo nas Ilhas Dawson, e pouquíssimos conseguiram sair de lá com vida, se adaptando à nova sociedade que surgiu.

 

A última Selk’nam

Em 1966 faleceu a última Selk’nam, conhecida como Lola Kiepja, ela era uma Xamã e cantora que, apesar de saber falar espanhol, adorava falar o seu idioma mesmo que ninguém o compreendesse. Ela foi uma das maiores colaboradoras de Anne Chapman, etnóloga franco-americana que se dedicou a estudar os povos da região mesoamericana. Alguns outros decendentes diretos de Selk’nam morreram depois de Lola, sendo a última Angela Loji, que chegou a viver na Ilha Dawson, no entanto, Lola foi a última que teve real convívio com as tradições e vida dos Selk’nam. No vídeo abaixo, podemos ver imagens de Lola enquanto era canta uma canção tradicional.

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