Galápagos – A Inspiração de Darwin

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Tartarugas gigantes, iguanas marinhas, pinguins no meio do mundo, leões marinhos andando pelas ruas, pássaros exóticos e uma incrível diversidade de plantas endêmicas fazem de Galápagos o maior laboratório vivo do mundo que eu tive o privilégio de visitar entre 2019 e 2020.

Cada ilha reserva uma surpresa. Em Santa Cruz por exemplo, por conta de sua topografia, o centro da ilha é formado por uma floresta enquanto as bordas são áridas com cactus. Cruzar a ilha é realmente incrível, pois temos a sensação de sair de um deserto, passar pela floresta amazônica e voltar para um deserto novamente, tudo em menos de 30 minutos. Normalmente no centro da ilha está chovendo enquanto todo o restante está super seco, o que torna a experiência ainda mais alucinante.

A chegada dos humanos

Com 97% de todo o seu território designado Parque Nacional pela UNESCO (ONU), e com apenas 4 das suas 58 ilhas habitáveis, o arquipélago de Galápagos, no Equador, abriga apenas 28 mil habitantes que vivem isolados há mil quilômetros de distância da costa. Eu visitei as ilhas de Santa Cruz, Isabela, Baltra e Seymour Norte (não habitável).

Todas as ilhas do arquipélago são vulcânicas, sendo que algumas se formaram entre 3 e 4 milhões de anos atrás e outras há 700 mil anos, por conta de erupções ocasionadas pelo movimento das placas tectônicas.

Vulcão Sierra Negra (a 2a. maior cratera do mundo), Isabela, Galápagos. Foto: Arquivo Pessoal

Embora sua colonização date de 1920 pelos noruegueses, há registros de que a primeira vez que um europeu pisou por ali foi em 1535, quando Frei Tomás de Berlanga, um espanhol nomeado bispo do Panamá, acabou chegando por acaso nas “Ilhas das Tartarugas”, como viria a ser chamada. Aliás, “Galápagos” é um nome em espanhol que significa sela, em referência ao formato dos cascos das tartarugas gigantes encontradas nas ilhas do arquipélago.

Vulcão Chico (ativo), Isabela, Galápagos. Foto: Arquivo Pessoal

O arquipélago não era habitado mas era muito utilizado por piratas e navegantes que, ao passarem pela região, faziam uma breve parada para capturar tartarugas que serviriam de alimentação para o restante da viagem.

O primeiro habitante de Galápagos que se tem registro foi Patrick Watkins, um irlandês que foi abandonado em 1807 por lá e viveu por 2 anos sozinho, cultivando alguns vegetais e trocando com mercadores que passavam por ali eventualmente. Mas em 1809 ele se cansou, roubou um barco e foi até Guayaquil, já no continente.

O arquipélago foi duramente explorado por piratas e posteriormente por baleeiros que, além de caçar baleias na região, também caçavam tartarugas, focas e pássaros levando espécies inteiras à extinção. Estima-se que cerca de 200 mil tartarugas gigantes foram caçadas apenas no século XIX e algumas espécies de animais foram extintas pela presença do homem.

Tartaruga de Galápagos. Foto: Arquivo Pessoal.

Além disto, animais que não faziam parte da fauna foram levados como cavalos, cabras e até ratos, que causaram enormes danos à fauna local, levando espécies à extinção e gerando grandes problemas de superpopulação (especialmente ratos) por não haver um predador natural para controlá-los.

A passagem do homem por Galápagos foi desastrosa, mas um ilustre visitante faria do arquipélago a pedra fundamental da teoria que iria mudar a forma como vemos o mundo.

Charles Darwin

Em 1831, com apenas 21 anos, Charles Darwin, um jovem criacionista, naturalista, biólogo e geólogo foi convidado pela Marinha Real Britânica a integrar uma missão que tinha por objetivo atualizar o mapa cartográfico do mundo, mas que viria a ser conhecida como a viagem que mudou a forma como vemos o mundo.

Sob o comando do capitão Robert FitzRoy, em Setembro de 1835, o HMS Beagle atracou no arquipélago onde ficou por apenas 35 dias, mas o suficiente para Darwin questionar sua inclinação criacionista ao se deparar com as espécies endêmicas (que só existem lá) da peculiar Galápagos.

HMS Beagle e Charles Darwin. Fonte: The Times

Darwin reparou que animais e vegetações da mesma espécie se desenvolveram de forma diferente em cada uma das ilhas, mesmo uma ilha sendo muito próxima da outra e compartilhando as mesmas características climáticas. Nas ilhas com vegetação rasteira, as tartarugas gigantes tinham um pescoço mais curto, já nas ilhas com vegetação mais alta, as tartarugas tinham um pescoço alongado. Embora exatamente da mesma espécie, iguanas tinham coloração diferente em cada ilha por conta de sua alimentação. Algumas desenvolveram a habilidade de mergulhar e caçar dentro do mar, enquanto outras se mantiveram em áreas secas.

Uma espécie de pássaros chamou tanto a atenção de Darwin que mais tarde viria a receber o seu nome. Os tentilhões de Darwin formam a maior população de aves no arquipélago. No entanto, cada uma das subespécies individuais, em cada ilha, desenvolveu um tamanho distinto de bico dependendo da dieta, variando entre sementes, flores, folhas e insetos, além de sangue de aves marinhas e restos de tartarugas e iguanas.

Tentilhões-de-darwin. Imagem: timetoast.com

O estudo dos tentilhões além das tartarugas, iguanas e de toda a vegetação endêmica do arquipélago, bem como toda sua observação ao longo de sua viagem, resultou na principal obra de biologia do mundo: “A Origem das Espécies”, de 1859, que naturalmente foi brutalmente rejeitada pela sociedade científica da época, mas que gradativamente foi aceita e hoje é praticamente consenso entre os cientistas.

Esta obra foi a base para a teoria da Seleção Natural e consequentemente da Evolução.

Animais Incríveis

É preciso tomar muito cuidado por onde anda pois iguanas e leões-marinhos estarão em todo lugar. Nas ruas, nas trilhas ou no banco da praça. A recomendação, claro, é sempre manter distância e nunca tocá-los, embora por muitas vezes seja difícil manter a distância recomendável. O leão-marinho de Galápagos é o maior animal das ilhas. Os machos podem pesar cerca de 250 quilos.

Cerca de 80% das aves terrestres das ilhas, 97% dos répteis e mamíferos terrestres, e pelo menos 20% das espécies marinhas são endêmicas das ilhas. As únicas iguanas marinhas do mundo – além de três espécies terrestres – são endêmicas de Galápagos, segundo a Galapagos Conservancy.

Uma das cenas mais incríveis que pude registrar foi a disputa de duas iguanas marinhas pelo território. Foi realmente muito interessante vê-las lutando, emitindo seus sons de aviso e terminando o combate na água até que o perdedor se retirasse no local.

Outra experiência incrível foi ver os atobás da pata azul. Eles são realmente uma graça. Suas patas azul turquesa possuem uma cor intensa causada pela sua alimentação. Aliás, este é um dos pontos mais importantes para a fêmea no momento da escolha do macho para acasalar. Ela irá procurar aqueles que possuem a pata mais azul, com a cor mais intensa, pois isto significa que ele possui grande habilidade para conseguir alimentos e consequentemente irá cuidar bem de seus filhotes. Desta maneira, quando o macho quer conquistar uma fêmea, ele ficará levantando suas patinhas para mostrar para ela o quão habilidoso ele é na espera de ser o escolhido.

Outro pássaro superinteressante é a fragata do peito vermelho, que possui um ritual muito interessante para atrair a fêmea. Tudo começa com o preparo do ninho. O macho irá recolher gravetos por toda a ilha e empilhá-los montando um ninho enorme que chega a ter 1,5 de altura e 2 metros de diâmetro. Depois disto ele irá pintar toda a parte superior do ninho de branco, para deixá-lo bem bonito e atraente. E como ele faz isto? Com suas próprias fezes! Este processo todo leva alguns meses de preparo.

Fragata do Peito Vermelho antes de começar os trabalhos. Foto: Arquivo Pessoal

Depois que o ninho está montado e pronto, chegou o momento então de convidar uma fêmea para vir acasalar com ele. Para isto, ele irá dedicar uns 20 minutos inflando uma bolsa vermelha que existe em seu peito até que ela tome-o totalmente dificultando até mesmo seus movimentos. Ele então se posicionará em cima do ninho e esperará por até 3 dias até que uma fêmea se encante com a casa que ele preparou para ela, bem como com seu lindo peito vermelho.

Fragata do Peito Vermelho aguardando a fêmea avaliar o ninho. Foto: Arquivo Pessoal

Em muitas ocasiões, a fêmea não fica muito feliz com o ninho ou com seu peito e o rejeita, fazendo com que o trabalho de meses seja totalmente perdido.

George o Solitário

As tartarugas gigantes de Galápagos são o principal atrativo para quem visita o arquipélago, e não por acaso. Elas realmente são enormes, chegando a atingir 1,8 metro de comprimento com mais de 250kg. Também vivem um bocado: elas passam facilmente dos 100 anos, algumas chegando a mais de 170 anos de idade.

Cerca de 25 mil tartarugas gigantes vivem no arquipélago, mas esta população já foi muito maior. Atualmente existe um esforço muito grande para sua preservação, embora infelizmente quatro espécies de tartarugas gigantes já tenham sido extintas, entre elas, a de George, o solitário, que foi o último membro sobrevivente de Chelonoidis nigri abingdoni, a espécie nativa da Ilha Pinta, morreu em 2012.

George Solitário e o seu cuidador. Imagem: Último Segundo

A subespécie de George foi dizimada após a ação dos colonizadores que trouxeram outros animais que não faziam parte da fauna local e que acabaram trazendo doenças ou matando boa parte das tartarugas da mesma espécie. Em 1972 George foi encontrado pelo pesquisador József Vágvölg e foi encaminhado para o Parque Nacional de Galápagos. Acredita-se que George tenha vivido cerca de 100 anos totalmente solitário em sua ilha, sem mais nenhuma outra tartaruga por lá, o que lhe rendeu o apelido de George Solitário.

Foram feitas muitas tentativas de extração de sêmen para tentar dar continuidade à sua espécie com outra tartaruga fêmea de uma espécie mais próxima, porém, infelizmente seu sêmen já não era mais produtivo. Em 24 de junho de 2012 George faleceu, levando a subespécie Chelonoidis nigra abingdoni à extinção.

George Solitário Embalsamado. Foto: BBC

Ele foi embalsamado por um famoso taxidermista ao custo de 2 milhões de dólares e se encontra exposto na Estação Científica Charles Darwin, em Puerto Ayora, ilha de Santa Cruz, Galápagos.

Vida Marinha

Três correntes marítimas passam pela região de Galápagos trazendo águas frias e mornas além de plânctons que alimentam uma colorida e abundante vida marinha.

Galápagos é um dos melhores lugares do mundo para se mergulhar, no entanto, é um dos mais difíceis dado justamente a movimentação constante das águas que tornam o mergulho mais apropriado para mergulhadores experientes. Eu, como mergulhador de pouca experiência, tive de me contentar com uma mergulho básico mas que foi o suficiente para ver espécies incríveis e, claro, nadar com alguns tubarões de recife.

Eu observando um tubarão de recife em Galápagos. Foto: Arquivo Pessoal

O fenômeno do El Niño, que ocorre a cada dois ou oito anos, resulta em grandes estragos para a vida na região. Suas águas quentes e menos nutritivas prejudicam a cadeia alimentar resultando em muitas mortes. No El Niño de 1982-1983 e no de 1997-1998, a população de iguanas marinhas diminuiu cerca de 90% enquanto a população de pinguins caiu mais de 75%. A de leões marinho caiu pela metade e quase todos os leões marinhos com menos de 3 anos morreram.

Leões marinho de galápagos. Foto: Arquivo Pessoal

Uma das maiores preocupações no arquipélago é com a sua preservação. Por conta disto, apenas 20 mil pessoas por ano podem visitar a reserva. Todos os visitantes serão rigorosamente orientados sobre as regras de conduta do local e todos os passeios educam para a preservação deste que é um dos lugares mais peculiares e interessantes que tive o privilégio de conhecer.

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