Cartagena das Índias: A Heroica

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Cartagena das Índias, ou simplesmente Cartagena, é possivelmente uma das cidades mais charmosas das américas. Seus casarões coloridos com suas varandas floridas escondem uma história de muita luta contra invasores, piratas e até bruxas! Ok, a parte das bruxas é uma lenda, mas não deixa de ser interessante, afinal, interferiu até mesmo na arquitetura da cidade.

Casarões antigos de Cartagena – Foto: Arquivo Pessoal

Cada canto de Cartagena é recheado de histórias interessantes. O bairro Getsêmani, por exemplo, carrega uma história de resistência dos negros descendentes de escravos; tem também o Castelo de São Felipe; a Índia Catalina; sem contar ainda as belezas naturais, como as estonteantes Ilhas do Rosário: um complexo de 27 ilhas, uma mais linda do que a outra. Há muito o que se falar de Cartagena, mas para este post resolvi focar apenas na história da Cidade Murada.

Os Ataques

A primeira invasão que se tem registro na região foi realizada justamente pelos conquistadores espanhóis. Sua fundação se deu em 1533 quando os espanhóis, que já haviam passado pela região algumas vezes, resolveram se fixar por ali, expulsando, vendendo e escravizando os índios nativos que habitavam a região por pelo menos 2.500 anos antes da chegada dos invasores.

Inicialmente chamada de Golfo de Barú, a cidade foi batizada com o nome de Baia de Cartagena devido a sua baia ser muito semelhante à baia de Cartagena de Levante, na Espanha. Mais tarde seria finalmente batizada como Cartagena das Índias, em homenagem aos povos indígenas que habitaram a região por milhares de anos.

A cidade foi se desenvolvendo e virou uma importante rota para escoamento de ouro e prata para a Europa, além de ser a única cidade oficialmente autorizada pela Coroa Espanhola para comercializar escravos.

Comerciantes foram se estabelecendo e a cidade foi ganhando importância e status. Preocupados com a possibilidade de chamar a atenção de piratas e outros invasores, o Rei Felipe II encomendou a construção de uma Muralha de 11 quilômetros que protegesse toda a cidade, além de um castelo bem fortificado. Em 1639 foi construído o primeiro forte da cidade, mas só em 1796 a muralha estaria totalmente finalizada, tornando-se a fortificação mais completa da América do Sul. Durante cerca de 200 anos que levou para ser concluída, a cidade sofreu diversas invasões e saques realizados por piratas que eram atraídos pela riqueza e pela vida exuberante e esbanjadora da nova sociedade que emergia.

Canhão na muralha de Cartagena. Foto: Arquivo Pessoal

Em 1697 houve a Expedição de Cartagena, uma invasão com fins políticos que tinha por objetivo roubar a cidade dos espanhóis para garantir a sucessão do rei francês Luis XIV pelo seu neto Felipe V. Ocorre que a muralha já estava em parte concluída e causou grande dificuldade aos invasores. Por esta razão que em pouco tempo eles abandonaram a cidade, mas sem antes causarem grande destruição.

Treze anos depois de sua destruição a cidade já estava totalmente reconstruída, mas não demorou muito para que sofresse um novo ataque. Uma frota britânica e norte-americana com 186 navios e 23.600 homens chegou para tomar Cartagena. Para defende-la, a cidade contava com apenas 6 navios e 3.000 homens. Com ajuda das fortes chuvas e boas estratégias, os espanhóis, mesmo em enorme desvantagem numérica, conseguiram expulsar os britânicos.

Vista de um dos trechos da muralha de Cartagena. Foto: Arquivo Pessoal

Em 1811 Cartagena se tornou independente da Espanha, mas o custo seria altíssimo. Após alguns conflitos e revoltas, a cidade foi novamente destruída e devastada. Estima-se que cerca de apenas 500 escravos restaram morando na cidade que se transformou em ruínas. Era uma cidade fantasma, totalmente abandonada.

Quatro anos depois Cartagena foi novamente invadida e retomada pelos espanhóis que derrotaram os pobres negros remanescentes que insurgiam e tentavam defender o que sobrou da cidade. Estes escravos libertos resistiram por bravos cinco meses, mas acabaram sucumbindo. Por conta deste episódio, e de todo o histórico de ataques e invasões, a cidade ficou conhecida como “A Heroica”.

É possível caminhar por boa parte da muralha e ver de perto sua fortificação. Foto: Arquivo Pessoal

E se engana quem pensa que acabou por aí. Ainda em 1821 ela sofreu um novo cerco para expulsar os monarquistas espanhóis da cidade. Cartagena foi a última cidade colombiana a se libertar dos espanhóis.

As bruxas

Em 1610 foi estabelecido em Cartagena o Tribunal da Inquisição e em 1770 foi concluído o Palácio da Inquisição. Já em 1811, quando se tornou independente, os inquisidores foram finalmente expulsos da cidade, no entanto, estes séculos de caça às bruxas realizadas pelos inquisidores, que as queimavam vivas na Praça Bolívar, deixou um rastro de lendas que modificaram inclusive a arquitetura da cidade.

Telhado com acabamento diferenciado por conta das “Bruxas”. Foto: Arquivo Pessoal

Reza a lenda que para evitar que as bruxas se aproximassem da cidade, os moradores deveriam deixar sempre uma telha pontiaguda no canto do telhado, desta maneira, quando as bruxas sobrevoassem a cidade com suas vassouras, poderiam se espetar nestas telhas e desta maneira iriam se afugentar. Não me parece muito eficaz, mas lenda é lenda.

Espanhóis, piratas, franceses, britânicos, norte-americanos e até bruxas amedrontaram esta cidade que hoje é conhecida pelo seu charme e pela sua arquitetura. As mortes, disputas e medos que pairavam pela cidade hoje dão lugar a um clima romântico que envolve quem passeia de charrete ou caminha pelas ruas estreitas da Cidade Murada, e se deslumbra com as lindas varandas floridas dos casarões de inspiração espanhola.

Colombianas com trajes típicos. Foto: Arquivo Pessoal

A charmosa, heroica, cobiçada e supersticiosa Cartagena das Índias na Colômbia, é certamente um dos destinos históricos mais interessantes que já visitei, e um dos mais coloridos também.

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