Racismo, Barbárie e Sorrisos

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Quando olho as fotos que tirei no Soweto, na África do Sul, e me vejo sorrindo, eu penso: “O que eu tinha na cabeça em estar sorrindo em um local que é um dos maiores símbolos de luta e sofrimento do mundo?”. Mas quando me lembro das conversas que tive por ali, tudo faz sentido.

Placa na entrada do bairro. (Foto: Arquivo Pessoal)

Racismo

O bairro do Soweto foi criado em 1963 em pleno período do Apartheid, que era a lei de segregação racial que dividia a cidade entre negros (ou outras etnias) e brancos.

Tente imaginar o que é viver em um lugar com esgoto a céu aberto, casas feitas de telhas de lata e onde você não come há dias, não tem água e para estudar, é obrigado a pagar pelo seu estudo e aprender um idioma que não é o seu. Embora o buntu fosse o principal idioma dos nativos sul-africanos, eles eram obrigados a aprender o africâner, um idioma criado para a segregação. Já os brancos, usufruíam de plena estrutura e qualidade de vida além de educação gratuita e de alta qualidade para seus filhos.

Certamente irei abordar mais sobre o racismo e o Apartheid em outro post, aliás, minha passagem pela África do Sul irá render muitas histórias interessantes. No entanto, tente imaginar apenas por um instante o que é ser submetido a tamanha humilhação e sofrimento apenas por conta de sua cor.

 

Museu Hector Pieterson. (Arquivo Pessoal)

Barbárie

Este cenário de brutal racismo levou em 1976 a cerca de 20 mil estudantes se unirem em uma passeata pacífica pedindo melhor qualidade de ensino (pelo qual eles eram obrigados a pagar) entre outras reivindicações. Acidentalmente ou não, um policial “deixou” uma bomba de gás-lacrimogênio explodir, o que causou uma confusão entre os próprios policiais que acabaram metralhando a multidão de estudantes que se dirigiam tranquilamente para um comício em um estádio local.

Famosa foto onde Hector Pieterson é carregado nos braços. (Foto: Arquivo Pessoal)

Embora os números oficiais da época contem 95 mortos, estima-se que foram cerca de 700 mortos nesta barbárie. Hector Pieterson, um garoto de 13 anos, foi uma destas vítimas mais famosas por conta de uma fotografia onde ele é carregado por colegas da escola e que comoveu o mundo. Hoje ele é homenageado com um museu na região central de Soweto que conta um pouco como era a vida no Soweto na época do Apartheid.

Casa de Nelson Mandela no Soweto. (Foto: Arquivo Pessoal)

O Soweto é o único lugar no mundo a ter dois vencedores do Prêmio Nobel morando na mesma rua. A Rua Vilakazi teve como moradores Nelson Mandela, que tive a oportunidade de visitar tanto sua casa como sua cela em Robben Island (que irá render outro post) como também o arcebispo Desmond Tutu, nomes de peso que surgiram das barbáries sofridas em seu bairro e que suas histórias e ensinamentos serviram de inspiração na luta contra o racismo.

Crianças sorrindo e brincando em uma pia de concreto no Soweto. (Foto: Arquivo Pessoal)

Sorrisos

Com um passado de tanta exploração, humilhação, mortes e barbáries, poderíamos esperar de sua população pessoas amargas, raivosas ou deprimidas, mas não para os sul-africanos, um povo que muito se assemelha ao brasileiro do qual eles mesmos gostam de fazer esta comparação. São animados, divertidos e nunca deixam o sofrimento abalar suas vidas.

No Soweto vi o que é de fato racismo, o que é ser explorado, humilhado, violentado e até assassinado apenas pela sua cor. Vi o que é lutar para ser visto como ser-humano, para ser tratado como gente e ter este mínimo direito negado. Vi o que é buscar forças onde não existe, lutar sem armas, apenas com a certeza da razão e da verdade. Vi o que é ter orgulho de ter tudo isto em seu passado, das pessoas ilustres que surgiram dali para ganharem o mundo, e por saberem que o que sofreram um dia, serviu hoje para mostrar o que nunca mais deveria acontecer.

Conversei com vários sul-africanos e sempre que podia eu perguntava se ainda existia algum reflexo do Apartheid no convívio entre negros e brancos, e todos eles me diziam a mesma coisa: Não nos importamos com isto, é passado, e esta nova geração nem faz ideia do que foi tudo aquilo, hoje somos todos iguais.

De tudo o que eu vi e de todas as histórias que escutei, o mais incrível mesmo foi escutar de vários negros sul-africanos diferentes a mesma frase “hoje somos todos iguais, não há mais diferença entre nós”. É claro que as diferenças existem ainda, mas o que eles querem dizer com isto é que eles, os negros, não tratam os brancos atuais com diferença, eles entendem que os brancos de hoje, filhos ou netos dos brancos racistas daquela época, também pensam como eles e já não faz o menor sentido se tratarem com hostilidade. Eles viveram o Racismo e sofreram Barbáries mas encontraram no perdão a melhor maneira de conseguirem tocar suas vidas, se livrando assim do mal que o ressentimento causa em quem não perdoa.

Eles fazem questão de sorrir o tempo todo. É um sorriso que mistura alegria, orgulho e ao mesmo tempo um pouco de alívio e esperança. Eles sorriem pois possuem a incrível habilidade de perdoar, virar a página e seguir a vida. Sem ódio, sem desejo de vingança, sem indiferença.

Quem convive com a leveza do perdão, mesmo tendo sofrido o pior dos sofrimentos, é capaz de sorrir e continuar sua busca pela felicidade.







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